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ROTA DAS MONÇOES: OURO, DIAMANTES E PEDRAS PRECIOSAS.


Pequenos diamantes, popularmente chamados de chibiu.


Desde 1718 com a descoberta das primeiras minas de ouro na região de Cuiabá, iniciaram-se, a partir do porto de Araraitaguaba (hoje Porto Feliz SP), a navegação pelos rios em direção aos sertões do centro-oeste, na busca pelo segundo eldorado brasileiro.


Com o estabelecimento dos sítios de Camapuã pelos irmãos Leme e o sítio de Coxim pelo monçoeiro João de Araújo Cabral, foi consolidada o caminho fluvial para as minas de Cuiabá, a então chamada rota das monções via rio Pardo, Camapuã, Coxim e Taquari em direção a Cuiabá.


Passagem de uma monção pelo rio Coxim


Após 100 anos de intensa exploração ouve o declínio da mineração aurífera e consecutivamente o surgimento de outras atividades econômicas como fonte de renda para a então Capitania de Mato Grosso. Quando em 1818 a vila de Cuiabá foi transformada em cidade, a economia da capitania girava em torno do ouro, da produção de açúcar, do gado, de diamantes e pasmem, na prata contrabandeada das regiões andinas.


Foto: Corindons da região aureo-diamantífera do rio Coxim. Safiras azuis, amarelas, verdes, brancas, pretas. São conhecidas popularmente por azulinhas.


Desde a descoberta das primeiras jazidas de ouro, sabia-se que em muitos terrenos haviam boa quantidade de diamantes, mas a exploração das pedras era terminantemente proibida pela Coroa Portuguesa. Houve situações em que terrenos auríferos contendo diamantes foram fechados e proibidos de serem explorados.


A coroa portuguesa, em 1731 baixou um decreto ordenando aos ouvidores que “mandassem imediatamente despejar das lavras diamantinas toda pessoa de qualquer situação que fosse, que nelas minerasse”.


Foto: Garimpeiro expõe o resultado de seu trabalho.

“Neste mesmo anno descobrio Manoel Cardozo de Siqueira, e outros huma grande descoberta de ouro além do Paragoay mandou o Ouvidor examinar com ordem, que se achassem diamantes, queimassem as cazas, e trouxessem os descobridores prezos. Achousse diamantes, queimou lhes tudo, vierão alguns prezos, e outros fugirão”.( Annaes do Sennado da Camara do Cuyabá 1748).


O mercado de diamantes mundial tinha como principal fornecedor a Ìndia, tendo Portugal como centro de comercialização na Europa. No Brasil a exploração de diamantes foi liberada em 1729 sendo uma enorme quantidade de pedras lançadas no mercado mundial, o que ocasionou a queda do preço das gemas desestabilizando o comercio Mundial.



Foto: Monçoeiros embarcado rumo a Vila dos Diamantes.


Proibir as colônias da América Portuguesas de extraírem diamantes foi a politica adotada pelo Império para continuar mantendo seu domínio sobre o mercado.


Foto: Na mineração artesanal de diamantes é comum a presença de safiras (corindons).


Enquanto a extração do ouro e o pagamento do quinto (20% da produção) interessava a Coroa Portuguesa, evitar a exploração dos diamantes na fronteira oeste do Brasil era uma das formas de evitar a desvalorização das pedras no mercado europeu. Por isso, em 1734 foi criada a Demarcação Diamantina e a intendência dos Diamantes, sendo proibida a exploração da preciosa pedra.


“tomou S. Majestade debaixo de Sua Real Proteção o Contrato dos Diamantes fazendo exclusivo o seu comércio” (agosto de 1735)



“Tendo a alta providência de Sua Majestade prevenindo os meios com que os diamantes possam recuperar a sua estimação, que tanto têm envilecido com a grande abundância deles ...Mando, que todos os mineiros, que tem serviços naquele rio, não possam extrair cascalho deles, ... e que fora dos rios, em que atualmente estão os serviços, não possam pessoas, ou escravo algum minerar, ou faiscar diamantes, e consequentemente, que dentro do distrito, que se há de demarcar nas terras diamantinas, possam fazer descobrimentos novos de diamantes” (Anais da Biblioteca Nacional).


Foto: Depósito de cascalho para a lavagem.


Foram muitos os anos de proibição à exploração dos diamantes nas regiões de Mato Grosso e Cuiabá. Quando uma nova mina de ouro era descoberta e se nela houvesse diamantes, haveria a proibição da mineração naquela área. Imaginem a decepção dos garimpeiros quando descobriam ouro e diamantes nesses terrenos.


Foto: Apetrechos de garimpo..


Foi o que aconteceu com os sítios auríferos do Paraguai e seus ribeirões, descobertas em 1728 por Gabriel Antunes Maciel, que alguns anos mais tarde ao se constatar a presença de diamantes, em quantidade e qualidade, pela proibição da Coroa Portuguesa, foi feita a total dispersão dos mineiros faiscadores.



Foto: Garimpeiro aposentado mostrando o processo de lavagem do cascalho.


“... e outro sim mando, que nenhum dos moradores do dito distrito pelas roças dele possam ter bateias, almocafres, labancas, ou outro qualquer instrumento de minerar”.(Anais da Biblioteca Nacional)


Se por um lado a exploração legal de diamantes era proibida, por outro lado era impossível evitar a extração ilícita. Coibir o contrabando de pedras preciosas foi um dos maiores problemas enfrentados pelas autoridades da Coroa Portuguesa. As pequenas pedras brilhantes, por seu pequeno tamanho eram escondidas com muita facilidade, sendo estas atividades clandestinas chamadas de descaminho ou extravio.



Foto: Turistas em um dia de imersão nas antigas atividades de garimpo de diamantes.


Da mesma forma como a prata dos Andes chegavam ao mercado Mato-grossense, o ouro e os diamantes muito interessavam aos vizinhos espanhóis, havendo sempre esse comercio ilícito. Constantemente moradores e autoridades locais eram envolvidas não só na extração ilícita, como também no descaminho de diamantes.


Algumas autoridades locais, como o caso do Intendente e Provedor da Fazenda Real João da Fonseca da Cruz que foi réu após as acusações e boatos de que constantemente se “via nas mãos do Intendente uma porção de diamantes”, sendo confirmado que o referido intendente realizava o contrabando, levando furtivamente os diamantes da colônia para a metrópole. Também o ouvidor João Antonio Vaz Morilhas que teve sua casa revistada onde encontraram na gaveta de sua escrivaninha dois embrulhos, tende em cada um, setenta e oito pedras, entre grandes e pequenas, perfazendo o total de cento e cinquenta diamantes.


Foto: Turistas observando o processo de lavagem de cascalho, na busca de diamantes (aula demonstrativa).


Outro caso famoso de contrabando de diamantes foi a a prisão do padre Domingos da Silva Xavier, irmão mais velho de Joaquim da Silva Xavier, o inconfidente mineiro Tiradentes.


Já próximo a 1800, com o declínio da mineração aurífera, a produção de diamantes passou a crescer e a chamar a atenção das autoridades, tornando-se uma importante fonte de renda para a capitania de Mato Grosso. Foi instituída então a Junta de Gratificação dos diamantes e melhoramentos da mineração, com a finalidade de reter a produção de diamantes para a Real Fazenda e inibir a ação de contrabandistas.


Foto: mostra de pedras semi-preciosas agregadas a mineração de diamantes (fósseis de Corais, calcedôneas e outras).

“facilitar e promover a extração do ouro e diamantes” e evitar “os crimes que possam infelizmente perpetrar alguns dos meus vassalos cegos da ambição, e a forçosa necessidade de serem punidos conforme as leis” (Príncipe Regente D. João).


“No dia 1º de Abril foi estabelecida n’esta villa a junta de gratificação dos diamantes e melhoramento da mineração, por ordem de S. A. R., e pelo Illm.º e Exm.º general” (Annaes do Sennado da Camara do Cuyabá 1813)




Foto: Visitantes em frente ao acampamento do minerador.


A junta de Gratificação tinha a incumbência de receber os diamantes os diamantes extraídos e conceder gratificação as pessoas, estabeleceu a politica administrativa quanto a extração de diamantes, estruturando a junta dos diamantes e os ordenados a serem pagos em cada cargo, estabeleceu regras quanto ao horário de atendimento do serviço publico, a forma como os diamantes deveriam ser armazenados os prazos e os locais em que as gemas deveriam ser entregues, como também estabelecendo os valores das gratificações, considerando o tamanho e a qualidade das pedras.


Foto: Garimpeiro aposentado fazendo demonstração da lavagem de cascalho.


Qualquer um, livre ou escravo, que voluntariamente entregasse diamantes na junta, recebia uma declaração da Real fazenda que servia como comprovante para recebimento da gratificação, ficando isento de ser acusado de contrabandeador. Os patrões que impediam seus escravos de entregarem os diamantes encontrados era severamente punido pela autoridade competente.



Foto: Garimpeiro aposentado atuando como mestre no processo demonstrativo de mineração de diamantes.

A proibição da mineração de diamantes na Capitania de Cuiabá estendeu-se até o inicio do século 19.


Na rota das monções já no século 20, nos afluentes do rio Taquari-mirim, Jauru e Coxim, a extração de diamantes foi intensa, movimentando a economia da pequena cidade ribeirinha de Coxim. Até a década de 70, o distrito de Jauru era o principal centro de extração da valiosa pedra. Ao conglomerado de casas que se formaram em torno das lavras, deu-se o nome de vila dos Diamantes.


Foto: Partida de uma monção com destino a vila dos Diamantes.


Atualmente a extração comercial de diamantes cessou, passando o vilarejo a depender

das fazendas de criação de gado, da pesca profissional, e da agricultura de subsistência.


Dentro do Programa Rota das monções, garimpeiros aposentados fazem a demonstração do processo de extração mineral de diamantes, tal qual era a extração nos séculos anteriores. Turistas nacionais e internacionais, através do turismo de base comunitária, fazem uma imersão no antigo mundo da mineração nos sertões do centro oeste brasileiro, que lhes possibilita ter nas mãos pequenos diamantes, safiras coloridas e pequenas pedras semipreciosas.


Foto: Garimpeiro aposentado transformado em mestre das atividades artesanais do garimpo de diamantes.


“Projeto Resgate, Promoção e Valorização do Patrimônio Cultural da Rota das Monções. Fundo Estadual de Defesa e de Reparação de Interesses Difusos Lesados – FUNLES MS / OSC Espaço Manancial/ Salt Media”.


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Rota das Monções: "Se o Brasil nasceu na Bahia, o Brasil cresceu por aqui.”



Foto: Safira azul (azulinha).

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