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ROTA DAS MONÇÕES. O PILOTEIRO DE HOJE E O PROEIRO DO PASSADO


Imagem: O batelão paulista das moções do século XVIII e a canoa monçoeira de alumínio, com motor de popa de 50 hp, nos dias atuais (2022).


Na saga das monções, para se percorrer os 3.600 km que separavam Araraitaguaba (Porto Feliz) de Cuiabá, além de uma boa embarcação era necessário contratar uma boa tripulação. Os batelões das flotilhas monçoeiras eram movidos a remo, tendo uma tripulação formada por um remador a guisa de piloteiro que ia na popa (parte traseira) da embarcação, um auxiliar armado que protegia o grupo contra o ataque de nativos, quatro ou mais remadores dispostos em dupla em cada lado da nau (exemplo da gravura), e um remador de proa (ponta dianteira da embarcação) chamado de proeiro, que ia em pé, a frente, orientando os remadores e o piloteiro.


O Proeiro era um dos mais experientes monçoeiros, pois praticamente comandava a embarcação, dando ordens para a execução de manobras. Em pé a frente da embarcação, avistava ao longe os perigos eminentes e iminentes, tais como pedras, tocos enroscados, bancos de areia, árvores caídas (rasouras), corredeiras e cachoeiras. Batendo com o calcanhar na proa, ditava o ritmo das remadas programando a velocidade da embarcação. Batidas calmas, remadas lentas, batidas rápidas, remadas rápidas, batidas fortes, remadas vigorosas e não havendo batidas, não era necessário remar. Assim seguia o batelão monçoeiro sob o ditame do proeiro.


A matula, ou os gêneros alimentícios e as bebidas que levavam na canoa, eram conduzidos em caixas fechadas, protegidas pelo pequeno toldo que cobria a embarcação e trancadas a chave para não serem desviadas ou consumidas pelos tripulantes menos escrupulosos. O proeiro é quem ficava com chave das caixas.


Dependendo do humor e do proeiro, algumas vezes as batidas do calcanhar marcavam também o ritmo de alguma canção de domínio popular, que animava os remadores. As canções da época tinham uma composição poética diferentes das atuais, com influência tanto de europeus como de africanos, misturando-se com estilos nativos.


Dentre as diversas formas de compor poesia na época das monções, havia um estilo que era caracterizado pela repetição de versos. O triolé originário da França era um estilo poético medieval, que havia desaparecido no século XVI mas que foi reaparecendo em anos posteriores até se reerguer no século XIX. Como poema de forma fixa, era composto por uma oitava com duas rimas, sendo que o primeiro verso se repetia no quarto e os dois primeiros finalizavam a estrofe com o sétimo e oitavo versos.


Triolé do proeiro


Ouço a cadência da remada,

Nas batidas do calcanhar do proeiro.

No ritmo certo, a forte pancada,

Fazendo o batelão deslizar ligeiro.

Ouço a cadência da remada.

Atrás do ouro vai o monçoeiro.

Ouço a cadência da remada,

Nas batidas do calcanhar do proeiro.


O proeiro não domina a cadência

Mas a cadência domina o proeiro.

Os remos batidos com a mesma freqüência,

Fazem deslizar o batelão monçoeiro

O proeiro não domina a cadência,

Batida constante, movimento corriqueiro.

O proeiro não domina a cadência

Mas a cadência domina o proeiro.


Experiente remeiro é o proeiro,

Controla a canoa, usando o varejão.

Com remo longo, auxilia o piloteiro.

Batendo o calcanhar, faz remar com precisão

Experiente remeiro é o proeiro.

guarda a chave da bebida e da alimentação

Experiente remeiro é o proeiro,

Pois controla a canoa, usando o varejão.


Tum, tum, tum, é a cadencia das remadas,

É o som do calcanhar , no assoalho da embarcação.

O tum, tum, tum, desperta os camaradas,

Cuiabá está bem próximo, olha só a animação.

Tum, tum, tum, é a cadencia das remadas

Ouro, muito ouro, no final desta monção

Tum, tum, tum, é a cadencia das remadas,

é o som do calcanhar, no assoalho da embarcação.


Ouço a cadência da remada,

Nas batidas do calcanhar do proeiro.

O proeiro não domina a cadência

Mas a cadência domina o proeiro.

Experiente remeiro é o proeiro,

Pois controla a canoa, usando o varejão.

Tum, tum, tum, é a cadencia das remadas,

é o som do calcanhar, no assoalho da embarcação.

(DE PAULA – O triolé do proeiro – 2009)


“Projeto Resgate, Promoção e Valorização do Patrimônio Cultural da Rota das Monções .

Fundo Estadual de Defesa e de Reparação de Interesses Difusos Lesados – FUNLES / OSC Espaço Manancial/ Salt Media”.


Rota das Monções: "Se o Brasil nasceu na Bahia, o Brasil cresceu por aqui.”

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