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A ilha do Paraíso - Foz do rio Taquari



A conquista do rio da prata

A história da conquista do sertão platino-americano pelos europeus remonta aos primórdios de 1500. Foi neste período que a expedição espanhola comandada por Juan Dias de Solis ingressou no rio da Prata. Espanhóis e Portugueses, à época, movidos pelas lendas do Eldorado e da Montanha de Prata, disputavam a conquista e a “descoberta” de fabulosas riquezas. Estavam todos ávidos pelo ouro e pela prata existente no continente sul-americano.


Em 1516 a expedição espanhola comandada pelo piloto mor de Espanha Juan de Solis, penetra pelo rio da Prata, sendo mal sucedida, pois o comandante foi morto e devorado pelos nativos.


Desembarque de Juan Diaz de Solís (pintura de Ulpiano Checa – Domínio público)


Após a morte de seu chefe, a expedição resolveu regressar á Espanha. Ao tentarem regressar para o velho continente, somente uma parte da frota consegue chegar ao reino de Castela.


Devido a um violento temporal, uma das embarcações resolveu aportar em uma baia, mas foi vitima do sinistro e naufragou. De seus 15 tripulantes apenas 11 conseguiram sobreviver e atingir a costa. O naufrágio se deu em frente a uma ilha chamada pelos locais de Meiembipe, que mais tarde foi batizada com o nome de Santa Catarina, local mais conhecido hoje como Florianópolis.


Dentre os sobreviventes citam-se os nomes de 5 deles: Aleixo Garcia, Francisco Pacheco, Henriques Montes, Francisco Fernandes e Melchior Ramirez.


O naufrágio (Imagem: divulgação)


Os náufragos foram acolhidos pelos nativos da região, passando a viver entre eles, estabelecendo-se e constituindo famílias. A presença dos europeus que se fixaram na região, foi útil aos navegadores ibéricos, pois o porto, a partir daí, passou a ser frequentado, vindo os antigos náufragos a prestarem serviços a navegadores e a exploradores que por estas praias aportavam.


Aleixo Garcia e a ilha de Santa Catarina


Aleixo Garcia o sobrevivente português, ali viveu por oito anos, constituindo família, conquistando a confiança dos nativos, enquanto perscrutava a origem de seus adornos (de ouro e prata), e o caminho para a fonte daquelas riquezas.


“Os que daquela terra vivem, dizem que não longe dalí há umas grandes serras de onde tiram infinitíssimo ouro e que mais adiante, nas mesmas serras, tiram infinita prata ”.(Sebastian Caboto – 1.526)


O Peabiru, o rei branco e a montanha de prata


Aleixo Garcia ao estudar os nativos de Santa Catarina, soube da existência do povo que vivia em uma região serrana e eram governados por um “rei branco”, onde havia abundancia de ouro e uma montanha de prata.


“A gente da dita terra é mui diferente entre si, porque os que vivem nas fraldas das serras são brancos como nós, e os que estão próximos da beira do rio são morenos”.(Sebastian Caboto – 1.526).


Reconstituição artística de Atahualpa - George S. Stuart, Museu de Ojai Valley, Califórnia. (https://ensinarhistoria.com.br/conquista-do-imperio-inca/)


“… Junto á la dicha sierra había un rey blanco que traía buenos vestidos como nosotros, se determinaron de ir allá, por verlo que era, los cuales fueron y les enviaron cartas” (RAMÍREZ, L., Carta do Rio da Prata – 1528).


Aleixo ao estudar o povo da terra conheceu o hábito migratório dos guaranis, acabou descobrindo os antigos caminhos e rotas que ligavam o litoral do atlântico ao interior do continente, conhecendo assim, os peabirus, caminhos que levavam ao Peru, ao povo Inca.


Os Peabirus e os escambos entre os nativos


Peabiru – caminho dos Incas pelo continente sul americano (Imagem: divulgação)


O antigo caminho intercontinental, utilizado pelos povos nativos á época da colonização, tinha diversas ramificações pelas quais era possível deslocar-se para diversas partes do continente, possibilitando o contato entre as tribos confederadas. Era uma rede de caminhos que interligava o sul ao norte e o leste a oeste. Segundo relatos, alguns guaranis atribuíam a construção dos peabirus a um ancestral civilizador chamado Sumé.


"(...) o caminho denominado pelos guaranis Peabiru e pelos espanhóis de São Tomé (...) tem oito palmos (1,60 metro) de largura, em cujo espaço somente nasce uma erva muito miúda, que se distingue de todas as outras ao lado, que pela fertilidade do solo tem meia vara (50 centímetros) de altura, e mesmo (...) que se queimem os campos, nunca a erva desse dito caminho se eleva mais" (Pedro Lozano).


São varias as interpretações dada ao nome, dentre elas o caminho para o Peru (pea = caminho + biru = peru), ou o caminho para as montanhas resplandecentes, ou ainda o caminho antigo de ida-e-volta (peabeyu).


" (...) mas a 200 léguas desta costa para o interior, meus companheiros e eu vimos uma estrada que é oito palmos de largura, e neste espaço uma grama muito pequena, e em ambos os lados desta estrada cresce até quase meia vara, e embora os campos sejam queimados quando a paya está seca, a grama sempre cresce assim. Esta estrada passa por toda aquela terra, e alguns portugueses confirmaram-me que corre muitas vezes do Brasil, e que vulgarmente lhe chamam caminho de Santo Tomé, e tivemos a mesma relação que os índios da nossa conquista espiritual.” (Antonio Ruiz de Montoya).


Através desses caminhos realizavam-se intensas trocas comerciais entre os povos do litoral, do sertão e os inca na região andina. Conchas ornamentais, sal e alguns mantimentos eram fornecidos pelos que habitavam no litoral. Produtos agrícolas como milho, batatas, amendoim, penas para enfeites, de aves como tucanos, araras e emas, corantes e até tecidos de algodão trocados com os nativos do sertão.


“Os sistemas sociais indígenas existentes às vésperas da conquista não estavam isolados, mas articulados local e regionalmente. Ao que tudo indica, vastas redes comerciais uniam áreas e povos distantes. Movimentos em uma parte produziam efeitos em outra, por vezes a quilômetros de distância. O comércio, a guerra e as migrações articulavam as populações indígenas do passado de um modo mais intenso do que observamos hoje” (FAUSTO).


Alguns autores citam também as trocas de mercadorias como a congonha ou erva mate pelos Guarani do sul, as peles de cervos e veados pelos Guaicuru e o taquari para a confecção de flechas vindos da região norte do Itatim. Dos incas vinham objetos de metal, como cobre, ouro e prata.


Peabirus – ramificação ao sul do continente interligando os oceanos e o império Inca. Imagem: divulgação.


O assalto ao fabuloso tesouro do povo inca


Entre os anos de 1521 e 1525, Aleixo Garcia e seus companheiros de naufrágio compuseram um exército com dois mil homens, partindo pelo Peabiru, cruzou o rio Paraná, chegando ao Itatim (pantanais sul-mato-grossenses) entrando na Bolívia na busca do fabuloso tesouro do Inca.


Confronto entre europeus e nativos sul-americanos.


Foram matando e saqueando todos os moradores que encontraram pelo caminho, recolhendo seus adornos e utensílios de ouro e prata. Após reunir volumosa carga, voltou Aleixo Garcia para o Paraguai, com precioso tesouro, sendo então morto pelos nativos. Uma mostra de seu tesouro foi enviada de volta para Meiembipe (ilha de Santa Catarina) e de lá para a Europa.


"(...) e lhes enviaram doze escravos com amostras do metal que tenho dito.”...“Chegou ao dito porto uma nau na qual vinha por capitão o dito dom Rodrigo, ao qual deram até duas arrobas de ouro e prata e de outro metal muito bom (...) para que o levasse a Sua Majestade. E que se entregou o ouro no batel para levá-lo à nau, o batel virou com o muito mar que havia, de maneira que se perdeu tudo, e que então se haviam afogado no dito batel quinze homens.” (RAMÍREZ, L., Carta do Rio da Prata – 1528).


Adornos de ouro e prata oriundo dos Incas. (Imagem: divulgação)


A chegada das peças de ouro e de prata roubadas dos Incas e as noticias de Garcia abriram a porteira para a grande corrida em busca de riquezas no continente sul americano. As aventuras de Aleixo influenciaram a conquista da América do Sul, pois a coroa espanhola patrocinou inúmeras expedições ao longo do rio da prata, tentando refazer o “caminho de Garcia”.


Enquanto a Espanha concentrava esforços penetrando no interior do continente através do Rio da Prata, a atenção da coroa portuguesa, à época, concentrava-se apenas em explorar a região da costa brasileira, buscando produtos nativos para comercializar do outro lado do oceano.


Ourivesaria da região andina. (Imagem: divulgação)


A busca pelo “el dourado” e as expedições pelo rio Paraguai


A visão expansionista da coroa espanhola, a partir da década de 1530, culminou com a organização de uma rede de administração para a colonização e exploração das terras ao sul do continente, a partir do rio da Prata. Assim em 1534 foi criado o Governo do Rio da Prata e do Paraguai, ou Nova Andaluzia. Esta divisão foi estabelecida pela Coroa Espanhola para a exploração e conquista da América do Sul.


Bergantim – Barco a velas. Modelo utilizado pelos espanhóis para navegar no rio Paraguai.

(Imagem: divulgação)


O porto De Los Reyes


Os espanhóis estavam convictos que o rio Paraguai era o caminho que os levaria aos lugares habitados pelo “Rei Branco”, nos quais havia uma “Montanha Prateada”. Várias expedições de exploração foram lançadas resultando no surgimento de povoados ao longo das margens do grande rio.


Foi assim na busca frenética pelo tesouro dos Incas e o “caminho de Garcia” que os espanhóis chegaram ao pantanal, onde puderam ter contato com etnias diversas obtendo informações da existência de ouro e prata, chegando bem perto das riquíssimas minas de ouro de Cuiabá que só seriam descobertas 200 anos depois.


Desde 1537 varias expedições em busca do “el dourado” foram realizadas, sendo que em uma expedição em 1543 o explorador Domingo Martinez de Irala aportou em local a qual denominou Puerto De Los Reyes, localizado na região do complexo flúvio-lacustre em que o rio adaptado as variações do regime das águas, expande-se nas cheias e encolhe-se no período de secas, sazonalmente formando ilhas, baias, lagoas e lagos, região essa hoje conhecida como pantanal.


O mar dos Xarayés ou a Laguna de Los Xarayés


Rio Paraguai no Pantanal em tempo de seca (foto: reprodução)


Até então, não haviam registros históricos sobre essa região. A grande planície inundada e inundável, quando no período de cheia, assemelhava-se a um grande mar de água doce, com o volume de águas cobrindo as altas árvores ribeirinhas, as extensas áreas cobertas pelas palmeiras bacuri, permitindo que os navios e barcos navegassem sobre a vegetação.


“...e como as águas começam a subir, lá por janeiro, voltam a retirar-se para os locais seguros, porque as águas sobem seis braças acima dos desfiladeiros, e se estendem por essas terras por mais de 100 léguas pela planície no interior, de modo que parece mar, e cobre as árvores e as palmeiras que estão sobre a terra, e os navios passam por cima deles; e isso acontece todos os anos do mundo habitualmente (NÚÑEZ CABEZA DE VACA – 1555).



Pantanal em tempo de cheia (foto: reprodução)


Nessa região, além de inúmeras etnias ribeirinhas que alí viviam era habitada por um numeroso povo conhecido com Xarayés, passando então a região a ser referenciada como “mar dos Xarayés” ou Lagunas de los Xarayés.


“...O termo Laguna de los Xarayes significa um “apelativo Guarani a um povo indígena que na época habitava, também, uma das grandes lagoas existentes na parte setentrional do Pantanal, possivelmente a Gaíva ou a Uberaba” (EREMITES DE OLIVEIRA).


O governador Cabeza de Vaca, foi o primeiro a descrever o sistema de pulsação das águas pantaneiras, relatando os ciclos anuais de cheias e secas, e o modo de vida dos povos ribeirinhos totalmente adaptados ao ciclo ambiental.


“...e os nativos do rio, quando as águas sobem nos desfiladeiros, preparam umas canoas muito grandes para esse período e, no meio dessas canoas, colocam duas ou três cargas de barro e fazem um fogão; isso feito, o índio entra na canoa com sua mulher e filhos e casa, e com a cheia da água vão para onde quiserem; e sobre aquele fogão fazem fogo e cozinham de comer e se aquecem, e, desse modo, passam os quatro meses do ano que correspondem a essa cheia das águas (NÚÑEZ CABEZA DE VACA – 1555).


Relata com bastante clareza a forma em que as famílias em suas casas flutuantes, deslocavam-se pela região alagadiça, pescando e caçando animais terrestres que se refugiavam nas partes mais alta da extensa planície, vivendo como pescadores-caçadores-coletores durante quatro meses, voltando ao final das cheias para suas casas e vivendo como agricultores-pescadores-caçadores- coletores, tendo seus modos de vida impostos pelas condições ambientais, totalmente adaptados as mudanças climáticas.


“...e como a água está alta, saltam em algumas terras que ficam descobertas, e ali matam veados e antas e outros animais selvagens que estão fugindo da água; e como as águas voltam a subir para retornar a seu curso, eles retornam caçando e pescando do mesmo jeito que foram, e não saem de suas canoas até que os desfiladeiros estejam descobertos, onde eles costumam ter suas casas. (NÚÑEZ CABEZA DE VACA – 1555).



Moradores ribeirinhos instalados em palafitas a margem do rio Paraguai, adaptados ao regime de cheias e seca.



A ilha do paraíso


Herança mitogênica reinante na idade média – a ilha dos bem-aventurados ou o paraíso terrenal. Imagem: reprodução.


Entre os anos 750 e 650 a.C. viveu um poeta oral grego da antiguidade Hesíodo que relatou a existência da “ilha dos bem-aventurados” ou “ilhas abençoadas” que na mitologia grega e céltica era o lugar que acomodava o paraíso terrenal.


“É lá que moram, com o coração livre de cuidados, nas Ilhas dos Bem-Aventurados, à borda dos turbilhões profundos do oceano, heróis afortunados para os quais o solo fecundo produz, três vezes por ano, delicadas e florescentes colheitas” (Hesíodo - Os Trabalhos e os Dias).


Já em 512 d.C, conta a história que o monge irlandês conhecido como São Brandão, o navegador, após viagem que durou sete anos, ele e seus companheiros navegadores havia descoberto a terra Repromissionis – o Paraíso. Os episódios da navegação de São Brandão são relatados no texto latino medieval “Navigatio Sancti Brendani Abbatis" onde faz referencia ao longínquo paraíso insular. Essas ilhas no tempo dos descobrimentos marítimos ficaram conhecidas como “ilhas afortunadas” ou como “ilha do Brasil”.



Selo - Ilha de São Brandão (imagem: reprodução)


A ilha do Paraiso, na mente dos colonizadores europeus, que chegavam a América do Sul, revelava-se como um local aprazível, cheio de riquezas, clima agradável e terra fértil, repleto de aromas, cores, sabores e melodias. Os seres humanos, vivendo em completa harmonia com a natureza, cheios de felicidades e livres de tristeza. Inocentes, bondosos, corteses e hospitaleiros.


Na busca pelo caminho de Aleixo Garcia, a lembrança dos metais preciosos, revigorava na mente dos conquistadores, a visão mítica do “grande rei branco”, a “sierra de la plata” e o “ouro das amazonas”, como também a lenda do santo irlandês do século VI, chamado de São Brandão o navegador, que acreditava que o paraíso terrenal estava perdido em algum lugar do Atlântico.


Foi assim que navegando pelo alto rio Paraguai, em meio a extensa planície inundável do pantanal, ou “Laguna de los Xarayes”, como foi posteriormente chamada, depararam com uma extensa ilha fluvial, próxima a uma das desembocaduras do rio Taquari. A ilha dividia o rio Paraguai em dois canais, sendo o canal da esquerda conhecido hoje como Paraguai-mirim.


"Há alguns povos e nações que navegam o rio, até algumas cidades indígenas chamadas Orejones, que vivem dentro de uma ilha que faz este rio, com mais de dez léguas de comprimento e duas e três de largura, ” (GUSMÁN, Ruy Diáz).


Características do paraíso – Hospitalidade, bondade e cortesia dos ilhéus


A amabilidade e receptividade do povo da ilha, as amostras de pedras e metais preciosos, a riqueza de alimentos, o clima e a fertilidade do solo, bem como a vida alegre dos ilhéus que viviam cantando e balando todos os dias, levou os conquistadores que ali aportaram, a acreditar que haviam encontrado a tão sonhada ilha do paraíso.


"...encontram-se nessa vida boa, bailando e cantando todos os dias e noites, como pessoas que têm assegurada a alimentação. (NÚÑEZ CABEZA DE VACA – 1.555).


A tripulação que desembarcou na ilha, vinha esgotada pela longa navegação feita rio acima, enfrentando todas as adversidades, como escassez de alimentos, ataques constantes de povos hostis e a relação desgastante entre os próprios expedicionários, sem mencionar que haviam deixado para traz, lá na Europa, o conforto de seus lares, filhos e mulheres.


O paraíso dos Orejones – a superabundância de alimentos


A chegarem a ilha foram recebidos pelos moradores, com grande banquete e presentes, como se fizessem parte de uma comitiva real. Era como em um sonho, pois via de regra, ao longo da viajem rio acima, eram recebidos com flechadas, lanças e porretes.


“São os índios daquela ilha de boa vontade e amigos dos espanhóis” (GUSMÁN, Ruy Diáz).


No banquete de boas-vindas, a superabundância de alimentos chamava a atenção. Todo tipo de carne, desde aves, peixes e mamíferos. Patos, marrecos, jacus, mutuns, emas, jaós e nambus eram muito apreciados pelos habitantes da região. Peixes como o dourado, a piraputanga, o pintado, a jurupoca, piau-uçu e lambaris de espécies diversas eram frequentes na mesa dos nativos.


Porcos selvagens, como caititu e o cateto, a capivara, a anta, veado e cervo do pantanal, também eram muito apreciados. A fartura era em razão da grande quantidade existente nos campos, florestas e pradarias do entorno, além da criação dos animais domésticos, dentre eles, patos e marrecos e o cui-cui (porquinho-da-ìndia) trazido das terras altas (Altiplano Andino), cuja espécie nativa era chamada pelos Guarani de preá.


“....é terra fértil e abundante, no que se refere a mantimentos de caça e pescaria; os índios criam muitos patos em grande quantidade. (Núnes Cabeza de Vaca).


“são muito abundantes as roças de milho e de mandioca, e conseguem muita caça de veado e muitas frutas” (IRALA).


Outro fato que chamou a atenção dos espanhóis era a criação domestica de galinhas e patos como as da Espanha. Criavam também espécies silvestres a que chamaram de ave pesqueira e caça, talvez se referindo a marrecos pantaneiros e outras aves palustres.


Quanto a criação de caça, alguns nativos da região tinham o habito de capturar filhotes de veados, catetos e antas e cria-los como animais de estimação.


“pessoas de grandes lavouras e comida... lavradores de fartos mantimentos e criadores de patos, galinhas e outras aves pesqueiras e caça... e criam patos e galinhas como as da Espanha...criam patos em grande quantidade e algumas galinhas como as da nossa Espanha” (IRALA).


Patos selvagens do pantanal criados pelas populações pantaneiras

Com a criação de patos e galinhas, tinham a abundancia de ovos. Além dos ovos obtidos com os animais domésticos e domesticados, obtinham também nas praias e bancos de areia, em tempos de vazantes, ovos de gaivota depositados ao longo das margens arenosas.

Ninho de gaivota no banco de areia, com seus ovos e seu filhote.


A riqueza da fauna existente naquela região causava espanto e admiração aos exploradores vindos da península ibérica, pois em sua terra natal já não restava muito da fauna silvestre.


“Os rios de todo este continente são grandes e cheios de muitos bichos, e a terra também é assaz abundante; causa porque os que viemos costumados do Reino a não ver mais que os cães e gatos de Lisboa...”(Caetano Paes da Silva - 1754)

Criação de Cui-cui (porquinhos-da-India) para a alimentação.


A fartura de peixes


A grandiosa rede hidrográfica da regi~]ao, composta por rios, vazantes, corixos, lagos, lagoas, paleocanais, meandros abandonados, canais flúvio-lacustres, cobertos por vegetação aquáticas flutuantes e subaquáticas, formavam um fabuloso criatório de animais aquáticos, tendo como base da cadeia alimentar, as plantas e os peixes.


Sabe-se hoje, que a ictiofauna do pantanal ultrapassa mais de 370 espécies de peixes.


“Quando as águas estão baixas, os nativos deixam o interior e vêm viver na margem com seus filhos e mulheres para desfrutar das pescarias, porque é muito peixe que matam, e são muito carnudos. (NÚÑEZ CABEZA DE VACA – 1.555)


Abundancia de peixes do pantanal


"...É de se admirar a grande quantidade de peixes que as águas que vão baixando deixam na terra seca; e quando isso acontece, no fim de março e em abril, todo esse tempo aquela terra cheira muito mal, já que a terra está intoxicada. (NÚÑEZ CABEZA DE VACA, 1555).



Peixes mortos em consequência da dequada - Rio Paraguai, região do Porto da Manga, logo abaixo da ilha do Paraíso / maio de 2023.


O colonizador espanhol Cabeza de Vaca foi o primeiro a relatar em 1555 o fenômeno natural que ocorre no pantanal quando as águas da cheia começa a baixar. A população local chama de "dequada" ao fenômeno de deterioração da qualidade da água ocasionado pela decomposição da vegetação submersa quando do inicio do processo de inundação, provocando a escassez do oxigênio da água e matando os peixes por asfixia. A medida em que a água baixa, os restos mortais dos peixes ficam expostos nas margens do rio.

A grande quantidade de jacarés existente na região.

Além dos peixes capturados, destinados a alimentação das populações, era comum aos ribeirinhos pescarem jacarés, que eram muito abundantes na região, tendo a carne muito apreciada por seu excelente sabor.


O paraíso dos Orejones – a produção de sal


O sal entre os europeus era indispensável, mas os nativos embora não consumissem muito, utilizavam o sal e pimenta para moquer (secar) não só a carne de peixes como também de outros animais. O moquém era uma trempe construída com galhos de árvores, dispostas sobre o lume da fogueira ou expostas sob o sol quente, onde penduravam a carne dos animais.


As carnes moqueadas (secas) eram uma forma de conservar o alimento por longo período. A carne moqueada, quando em jornadas prolongadas eram a base da alimentação das etnias pantaneiras. A carne moqueada, também era utilizada nos escambos e trocas com outras etnias.


Sempre tinham o sal em reserva, para usarem na gastronomia, mas também reservavam como objeto de troca entre famílias ou tribos vizinhas.


Uma forma de obter o sal era através da troca com os povos que tinham contato com culturas andinos, pois os Incas estavam habituados a presentearem visitantes com o produto, que era extraído em larga escala dos salares do altiplano andino.


Outra forma de conseguir o sal era através dos escambos com os povos de “rio acima”, que exploravam as minas de sal existentes nas proximidades do rio Jauru (um tributário do Paraguai).


“Próximo ao rio Xucuruina ha hum lago abundante de succo salino, pelo que ocasiona guerras entre as tribos indígenas que, todos os anos, o vão extrair... nas campanhas que se estendem para o S. Do Jaurú, mostrão-se muitas lagoas, igualmente abundantes de succo salino.” (Dallincourt).


Obtinham o sal também das salinas próximas ao rio Negro e Miranda, não muito distante de onde viviam, na região chamada pelos espanhóis, de Itatim, hoje conhecida como Pantanal da Nhecolândia.


Lagos salinas da região de Itatim (hoje Pantanal da Nhecolândia).


O sal extraído dos aguapés


Uma forma usual de produzir sal na região era através da queima dos ramos e folhas da planta chamada aguapé. O aguapé ou camalote é uma planta aquática flutuante muito abundante nas áreas alagadas do entorno do rio Paraguai e vazadouros, vazantes, furados e canais divergentes do rio Taquari (regiões flúvio-lacustres do pantanal).

Aguapé do pantanal (Eichhornia crassipe


Através de pequenos barcos, fazia-se a coleta das plantas flutuantes, recolhendo os talos e folhas. Esses ramos eram levados para terra, e dispersos no solo, ficando expostos ao sol por alguns dias, até que estivessem totalmente secos.

Aguapé secando ao sol


Estando o material totalmente seco, eles eram recolhidos e amontoados em um local de chão batido, de forma que pudessem ser queimados em uma fogueira. A grande quantidade de material seco, ao ser queimado era transformado em cinzas, sendo estas, recolhidas em uma vasilha.

Queima da folha de aguapé


As cinzas resultantes da queima era misturada a água e levada ao fogo em uma grande vasilha ou panela de argila. Após ferver por algum tempo, tendo a maior parte da água sido evaporada, formava-se uma borra, ou substancia pasto depositada no fundo do recipiente. Esta pasta então era recolhida sendo coada ou filtrada em um coador feito de algodão ou tecido de algodão.


A massa resultante, era então, levada novamente ao fogo para a total evaporação do líquido.

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Panela fervendo com as cinzas do aguapé.


O resultado era a cristalização do sal no fundo da panela. Os cristais que se formaram era o sal de cloreto de potássio em forma de pó branco. Além de ser utilizado para salgar alguns alimentos era um material precioso que seria utilizado também como moeda de troca com outras tribos ou etnias, que viviam nas proximidades.

O sal produzido a partir da planta aguapé.


Quanto maior a quantidade de plantas recolhidas das áreas alagadas, maior era a quantidade de sal produzido. A produção de sal pelos nativos era uma atividade coletiva e envolvia grande parte da comunidade, que se divertia, entrando na água nos dias quentes e ensolarados. A produção devia atender não só a uma família, mas a toda parcialidade, com quantidade suficiente para o consumo e para as eventuais trocas.


Nativos Wauras colhendo aguapé para a fabricação de sal (foto Sebastião Salgado Filho – Folha de São Paulo)


O paraíso dos Orejones – A fertilidade e a produtividade do solo


Alguns exploradores europeus estavam interessados não só nas riquezas minerais, mas também na produtividade do solo. Sebastiam Caboto havia falado da fertilidade do sol na bacia do rio da Prata, pois havia testado sua fertilidade, plantando sementes trazidas da Europa. Agora os expedicionários espanhõis puderam ver com os próprios olhos o quanto a terra era produtiva.


“Ao chegar aquela terra quisemos saber se era fértil e boa para lavrar e encher de pão. Então semeamos no mês de setembro 52 grãos de trigo, logo no mes de dezembro se colheu cinquenta e dois mil grãos. Esta mesma fertilidade foi encontrada em todas as sementes.” ( Sebastian Caboto – 1.526).


Os orelhões eram agricultores por excelência, pois viviam em terra fértil, que além da grande quantidade de húmus produzidos pela folhagem das densas matas, periodicamente eram enriquecidas pela chegada de sedimentos ricos em nutrientes, trazidos nas cheias, pelos afluentes do grande rio Paraguai.



O clima ameno o ano inteiro, sem a distinção de inverno e verão, havendo fartura de água proporcionava boa produtividade quase o ano todo.


“...Os índios têm tudo ocupado com a semeadura e as chácaras, e semeiam e colhem o ano todo sem que haja diferença entre inverno ou verão, se em perpétua queda de temperamento e qualidade.” (Núnes Cabeza de Vaca).


“...semeiam e colhem duas vezes por ano milho e batatas e amendoim... ... são lavradores que semeiam milhos e outras sementes em grande quantidade”(IRALA).



O paraíso dos Orejones – Os mil frutos da terra


A produção agrícola da ilha, além dos frutos e vegetais do cerrado, como pequi, guavira, tarumã, bacuri, laranjinha, ananás, manduvi, boca-boa, combaru, mangaba, Bocaiuva, buriti cajuí, cultivavam também mandioca, milho, amendoim, batata e algodão.


“...é uma floresta muito agradável, abundante em mil tipos de frutas silvestres, entre elas uvas, pêras, amêndoas e azeitonas” (Núnes Cabeza de Vaca)


O arroz do Pantanal


Quando os espanhóis chegaram as regiões do alto rio Paraguai, após navegarem por vários dias, escasseando as provisões alimenticias, saiam nas circunvizinhanças a procura de alimento, para abastecerem seus bergantins.


Além do milho, da batata doce, do amendoim produzidos pelos nativos ribeirinhos, surpreenderam-se ao encontrar nos povoados, arroz descascado e pronto para o consumo, tal qual o arroz produzido na Europa.

Arroz nativo da planície pantaneira (Imagem: Arca do Gosto / Slow food Brasil)


Os Orejones da ilha e seus vizinhos, dominavam a técnica de fabricação e queima da cerâmica, a partir da argila recolhida nos barrancos do rio. Fabricavam, então grandes vasos de argila com tampas, a serem utilizados para armazenar alimentos.


O arroz, após ser pilado para a retirada da casca, era guardado nos potes de ceramica, sendo conservados por vários meses.

Arroz nativo da planície pantaneira (Imagem: Arca do Gosto / Slow food Brasil)


O semente do arroz era muito apreciada pelos europeus, sendo abundante nos campos alagados daquela região. Era o arroz de várzeas, nativo das planícies dos Xarayé. Trata-se do arroz do Pantanal (Oryza latifolia Desv. e Oryza glumaepatula Steud), que os nativos colhiam em suas canoas e armazenavam em potes de argila.

Arrozal nativo da planície pantaneira (Imagem: Arca do Gosto / Slow food Brasil)


Diferentemente do milho, da batata e do amendoim que eram plantados e cultivados em larga escala, o arroz nascia naturalmente nos campos alagados extendendo-se por vasta área. Era só esperar o tempo de amadurecimento para realizar a colheita, que era feita através de canoas. A planta sobressaindo da superfície da água, erguia-se a uma boa altura. Era só dobrar os cachos por sobre a embarcação e cortar a palha, ficando os cachos com os grãos dentro da canoa.


Os cachos de arroz colhidos eram levados para uma área onde era feita a debulha ou seja, a separação dos grãos da palha. A ramos de arroz eram então amarrados em feixes formando pequenos molhos de palha. Em uma área onde se estendia sobre o chão, um grande pano de algodão, instalava-se um cavalete de madeira com um estrado vazado onde eram batidos os molhos ou feixes. Com o impacto, os grãos de arroz separavam-se dos ramos, caindo sobre o pano estendido.


Retiravam-se as impurezas, deixando apenas os grãos que eram deixados para secar ao sol. Os grãos bem secos eram então depositados em vasilhas e levados para serem socados em um pilão de madeira. Através da socagem no pilão os grãos eram descascados, separando-se a palha, deixando os grãos prontos para a preparação do alimento.


Os arrozais existentes no Pantanal, após a passagem dos espanhóis no século XVI caíram no esquecimentos dos colonizadores vindo a serem mencionados somente no século XVIII quando da passagem dos monçoeiros rumo as minas auríferas de Cuiabá.


“nesta viagem por entre pantanais e campos rasos, cresce uma erva cuja semente é semelhante a do arroz, mas não tão perfeita como a do povoado. É, porém, sustento de quem colhe”( Francisco Palácio - 1726).


“ Sempre tive o gosto de ver com os meus olhos o que já tinham me contado, mas não persuadido. E foi marchar com as canoas por cima de vastíssimos arrozais que, naturalmente, sem serem plantados, crescem por aquele pantanal, e alí vem colher todos os anos o gentio. Quando mais aguas crescem, tanto mais cresce o arroz, de sorte que sempre está cinco ou seis palmos fora d’agua.”(Antônio Rolim de Moura- Vice-Rei do Brasil - 1.751).


Frutos do cerrado pantaneiro


Os espanhóis quando chegaram a região alagada do delta do rio Taquari e do complexo flúvio-lacustre das proximidades do Porto de Los Reies, nada sabiam a respeito das frutas nativas produzidos nos campos cerrados daquela região. Para cita-las, usavam o nome das frutas existentes na Europa, que se pareciam com as da terra.


“...é uma floresta muito agradável, abundante em mil tipos de frutas silvestres, entre elas uvas, pêras, amêndoas e azeitonas” (Núnes Cabeza de Vaca)


Uvas poderiam ser tarumãs. Pêras seriam pequis? Amêndoas poderia ser desde o amendoim, o côco das palmeiras bocaiuva, bacuri e babaçu ou os frutos do mandovi. As azeitonas seriam o fruto da Boca-boa?


“.... tinham peixe e carne, trigo turco, mandioca, também uma outra raíz que se chama amendoim e se parece com as avelãs...... em divina abundancia” (SCHMIDEL)


Frutos nativos da região: Tarumã,Pequi e Mangaba.


As sementes do pequi após a retirada da casca eram cozidas na água e comidas, no arroz ou pura. O fruto da mangaba era comido puro enquanto das sementes do tarumã fabricava-se um suco.


Frutos e amêndoas da região: Amendoim, amêndoa da bocaiuva e amêndoa do manduvi.


O amendoim era cultivado em larga escala pelos agricultores da localidade. Era consumido crú ou torrado ou socado no pilão, misturado com farinha obtinha-se uma paçoca, muito apreciada pelas crianças da aldeia.


Da palmeira bocaiuva obtinham um palmito doce que comiam refogado com algum tipo de carne. Do pequeno coco da palmeira, retirada a fina casca, roíam a polpa ou a retiravam e secavam ao sol formando uma farinha amarela, adocicada com qual faziam um mingau, bastante nutritivo.


Do milho seco, debulhado e batido no pilão obtinha uma quirela, que fervida com água e a farinha de bocaiuva obtinha uma canjica doce.


O manduvi era uma árvore gigantesca que dentro de seu fruto saiam umas sementes escuras, que consumiam comendo a amêndoa in natura ou socavam no pilão para fazer farinha.

Produtos alimentícios cultivados pelos ihéus: cará-moela, inhame e a mandioca.


O cará-moela é um bulbo axilar produzido por uma trepadeira. Rico em amido, cozido em água era utilizado em substituição ao pão, na primeira refeição da manhã. Seu uso também era frequente no cozimento de caldos, misturados com carnes de animais, como veados, antas e porcos selvagens catetos, catitus ou queixadas).


O inhame era um tubérculo natural de áreas um pouco mais úmidas. Também cozido era consumido com carnes ou moído em forma de massa era utilizado na fabricação de pães.


O tubérculo da mandioca era cultivado em larga escala. Seus usos mais comum era a farinha para a produção de farofas, beijus ou cozida para ser servida nas refeições diárias.


Os tubérculos e bulbos do cará-moela e do inhame, embora fossem comuns na natureza, assim como a mandioca eram cultivados, não só pelos ilhéus, mas também pelas demais tribos e etnias, pois quando em migração, garantia sempre levar algumas mudas para novos plantios ou mesmo trocas interétnicas.

Produtos utilizados pelos nativos

O algodão era cultivado em larga escala e muito comum entre as etnias, na só da ilha como também da região do Alto rio Paraguai. Dominavam as técnicas de plantio, coleta, armazenagem e confecção de tecidos em teares rudimentares.


A fruta do caju era muito apreciada, para se comida in natura, para a produção de sucos, sendo também utilizada sua castanha, após ser queimada ao fogo. Era comum nas regiões circunvizinhas os cajus-anões de cores vermelhas ou amarelas.


A buchinha-do-pantanal embora não fosse usada na alimentação por sua toxidade era utilizada como medicamento para o combate a infecções das vias respiratórias.


Fruto, folhas e tuberculos utilizados na alimentação : Araticum, Taioba e caará.

O araticum do cerrado era uma espécie de pinha, de cheiro agradável que era consumida quando madura. A taioba, uma hortaliça de folhas grandes e largas comumente utilizada de forma refogada e servida como acompanhamento de carnes vermelhas.


O caará um tubérculo parecido com o inhame era produzido em solos úmidos sendo consumido de forma cozida ou em forma de massa utilizada na produção de bolos.


Os nativos, ao longo de milhares de anos de cultivo conheciam as diversas variedades de mandioca e as que melhor se adaptavam ao cultivo em terras “altas” e as que melhor produziam em terrenos úmidos dos pantanais. Eram muitas as variedades e as utilidades da mandioca. Usava-se a folha para retirar o gosto forte da carne de algumas caças. A raiz cozida ia diretamente para a mesa, e se ralada, prensada e torrada produzia a farinha e da farinha o biju para ser comido com carne de peixe, de aves ou de mamíferos.


Na mesa utilizavam também a raiz de uma trepadeira que os guaranis chamavam de caará, e um fruto pequeno chamado de caará-moela. Os baixios da ilha produziam um vegetal de folha larga e sua raiz chamada inhame, era cozida e comida com carnes. Faziam-se um refogado com uma planta de folhas largas chamada taioba, que crescia em áreas pouco húmidas.


Quem conhece carandá?

Quem conhece camalote?

Quem conhece tarumã?

É do pantanal.

(Ciranda Pantaneira – Grupo Acaba – Moacir Lacerda, V. Barreto).

O paraíso dos Orejones – Fartura de pão


Das raizes ou tubérculos de vegetais eram preparadas farinhas e massas, que cozidas em fornos, transformavam-se em pães e bolos. Eram fabricados a partir da farinha de mandioca, milho e arroz, bolos e pães. Bijus eram produzidos de farinha de mandioca em pequenos fogões a lenha, em vasilhas de cerâmica. Bolos também eram fabricados com a massa de inhame e caará.


“...comem destas raizes exprimidas e se faz a farinha, e certos beijus como filhós, muito alvos e mimosos. Esta mesma raiz depois de curtida na agua feita com as mãos em pilouros se poem em caniços ao fumo, onde se enxuga e seca de maneira que se guarda sem corrupção... desta mandica curada ao fumo se fazem muitas maneiras de caldos que chamam “mingaus”, tão sadios e delicados que se dão aos doentes de febres.”( Jesuíta Fernão Cardim).

Produção da farinha de mandioca e do biju (fotos: divulgação).


O paraíso dos Orejones – As lindas mulheres.


Os exploradores em seu deslocamento ao longo do rio Paraguai viram inúmeros aldeamentos sendo que em alguns deles as mulheres andavam vestidas e em outros, não usavam nenhuma vestimenta e em alguns, apenas pequenas peças de tecido cobrindo as partes íntimas. E via de regra, consideravam as mulheres como feias, com algumas exceções.


Ao desembarcarem na ilha foram surpreendidos com a beleza das mulheres que ainda por cima,não usavam roupas, vivendo completamente nuas.


“...as mulheres também são muito lindas e não têm nada tapando em seu corpo e andam nuas” (SCHMIDEL).


Em pouco tempo, descobriram que a comunidade da ilha, gozava de completa liberdade moral, livre das imposições religiosas a que os espanhóis ou colonizadores europeus estavam subjugados ao professarem o catolicismo, principalmente quanto a poligamia e a nudez.


E para surpresa geral, foram oferecidos a cada um deles, esposas para que pudessem coabitar. Acreditaram piamente que haviam desembarcado no paraíso terrenal, pois viam neles a inocência bíblica antes do pecado original.


Os Orejones da ilha do Paraíso desapareceram, não se sabe se sob a pressão dos encomendeiros castelhanos ou sob a pressão dos bandeirantes paulista, ou mesmo sobre o ataque de etnias proximas, como os Paiaguá, os Guató, os Guaxarapos ou outra etnia. Não se tem o registro das fisionomias dos Orejones do alto Paraguai. O que se tem hoje, são fotografias do povo Rikbaktsa, ou os Orelhões” ou os" Orelhas-de-pau" que vivem mais ao norte em Mato Grosso.


A descrição das mulheres dos "Orelhoes"“ que vivem ao norte de Mato Grosso coincide com o relatado pelo explorador alemão Ulrich Schmidel na década de 1.540 "...as mulheres também são muito lindas ".


As lindas mulheres Rikbaktsa da aldeia Primavera, em Juína Mato Grosso. (Imagem: divulgação).


A região em que viviam os Orejones era habitada por inúmeras etnias, havendo constantes disputas por territórios, combates e guerras que resultavam em destruição. As alianças matrimoniais eram utilizadas por algumas etnias e parcialidades como um dos mecanismos para evitar conflitos e gerar alianças, estabelecendo uma interconexão entre os povos da planície.

O paraíso dos Orejones – Mulheres fiandeiras


O plantio de algodão era comum aos povos agricultores, havendo o domínio da técnica de tecelagem por vários grupamentos. A manufatura de tecidos era uma atividade desenvolvida pelas mulheres, pois o tecido de algodão era um produto de boa aceitação no mercado de trocas.


Plantar, cuidar dos vegetais, colher a produção, separar a semente das fibras, cardar-las, transforma-las em fios para depois ir ao tear e produzir o tecido, era atribuição das mulheres. Embora não usassem roupas, utilizavam o tecido para se cobrirem em noites mais frias, para sentar no chão e para a confecção de redes de dormir. Parte deste material também era utilizados em trocas comerciais com outros nativos.

Tear vertical; a produção de fios de algodão (imagens divulgação).


As trocas ou escambos de objetos valiosos ou mercadorias de prestígio que ocorriam nos contatos interétnicos, entre grupos populacionais no complexo flúvio-lacustre na região dos Xarayé, bem como o sistema de oferta de presentes, era um mecanismo utilizado para aproximar os povos e difundir e espalhar tecnologias de fabricação.


Dentre estas tecnologias citam-se a confecção de teares e produção de fios, a dispersão de modos de tecelagens e elaboração de tramas, a utilização e extração de corantes naturais. Os produtos de boa aceitação passavam a ser incorporados nas confecções uns dos outros.

“A partir de então, a aranha vinha todas as noites à casa da mulher e a ajudava a preparar algodão, fiar e tecer.... A aranha ensinou à mulher todos os padrões que existiam, para que logo ela pudesse fiar muito melhor e tecer mais bonito que sua sogra e suas cunhadas... Eles me perguntaram: “Onde você aprendeu a fiar e tecer tão bem?”...“Aprendi olhando”. (Hissink e Hahn – In Os fios e nós de Marico: a vida social da tecelagem do algodão no Piemonte Andino-Amazônico - J. Alejandro Barrientos Salinas).


O governador Cabeza de Vaca ao relatar sobre as mulheres Xaray, que viviam nas proximidades da ilha do Paraíso, observou que nos ícones bordados nas mantas, redes e tipões (roupas largas de algodão) estavam representados veados e emas, animais típicos da planície pantaneira, mas também o animal que chamou de “ovelhas índias”. Possivelmente seriam as lhamas dos altiplanos bolivianos, comumente retratadas em tecidos vindos da região dos Andes.


Teriam as mulheres Xaray e talvez as mulheres Orejones absorvido a iconografia dos Andes? Era comum entre as mulheres da etnia Mbayá-guaicuru, mormente entre os Kadiweo que habitavam o Itatim, copiarem motivos e ícones de diversas localidades, criando novos padrões que eram aplicados a tatuagens e pinturas corporais.


“As mulheres eram grandes fiandeiras de algodão... fazem grandes mantas de algodão ... e nelas, nas mantas, estão bordados diversos animais, como veados e avestruzes e ovelhas índias”(Cabeza de Vaca).



Alpacas bordadas em tecidos comercializados ainda hoje nas proximidades da ilha (seriam as “ovelhas índias” citadas por Cabeza de Vaca?)


“Há nestas terras uma ovelhas grandes como asnos comuns, que tem lã tão fina como seda, e outros muitos diversos animais”. (Sebastian Caboto – 1.526)


O paraíso dos Orejones – Leves regras sociais


Os moradores da grande ilha, embora vivessem em um regime comunitário, não formavam aldeias como as demais tribos com casas agrupadas, mas cada família em uma parcialidade.


As regras de sua sociedade eram outras, ignorando a propriedade, a moeda e a imposição de um monarca central que ditasse as regras. Não haviam leis escritas, nem livros, nem juizes perjuros, comandantes corruptos, gananciosos e interesseiros.


“ não cobren suas vergonhas; vive cada um por si com suas mulheres e filhos”(Cabeza de Vaca).


Enquanto para o europeu, qualidades como vida em harmonia, tranquilidade, abundancia e paz, pareciam inacessíveis, sendo portanto, procuradas ansiosamente, aqui na ilha todos viviam satisfeitos com suas vidas e suas famílias, sem preocupações quanto ao futuro, gozando de um verdadeiro bem-estar social.


“... vivem em galpões, não na forma de um povo, mas cada parcialidade por si: mantenham-se uns aos outros em muita paz e amizade” (GUSMÁN, Ruy Diáz).


Casinha de sapé - Pintura - técnica mista sobre papel - De Paula.


O paraíso dos Orejones – A cura dos males


A vida na ilha era bastante salubre, com puro e temperado ar, que segundo os exploradores não proliferava muitas doenças, mas quando ocorria a alguém ser acometido de algum mal, recorriam ao tratamento fitoterápico, pois os nativos detinham o conhecimento milenar das plantas com poder curativo. O uso de folhas, galhos, cascas e raízes de vegetais era comum, não só entre os ilhéus, mas também, aos demais nativos que viviam em toda a região.

Buchinha do Pantanal


Conheciam também os vegetais que poderiam ocasionar a cura de sinusite, e também a morte, se usada para esse fim específico. Nessa região de planícies alagáveis, os nativos usavam o fruto seco de uma trepadeira conhecida hoje com “Buchinha-paulista” ou “buchinha-do-pantanal”, que deixada de molho, se inalada, tinha o poder de combater as inflamações faciais, como descongestionante nasal.


A plantinha além das propriedades anti-inflamatórias, era um poderoso abortivo. O sumo do vegetal era também utilizado para envenenar ponta de flechas.


“O veneno vegetal, de que se servem para peçonhentar as ponta das flechas dos Murucuas e dos Curabis, é extraído de um cipó chamado “uirari”, grosso, escabroso e guarnecido de folhas parecidas com as da maniva. A sua manipulação consiste em mascotar a casca, borrifá-la com água fria, destilá-la e fervê-la ao lume até ficar o sumo espessado em ponto de linimento. Para aumentar a energia do tóxico, adicionam-lhe sucos espremidos de outros cipós e vegetais que sejam de natureza venenosos”. (BAENA, 2004)


O uso de substancias vegetais para envenenar pontas de flecha não era exclusivo dos Orejones, mas adivinha de um processo secular perfeitamente dominado por diversas etnias. Assim, a cada região, vegetais diferentes em acrescentados a receita, sem no entanto diminuir a eficácia do produto, que era letal ao entrar em contato com o sangue da pessoa, mesmo que o ferimento fosse de raspão.


“ainda que tenha sido morto outro companheiro nosso chamado Garcia de Soria, natural de Logronho. Na verdade não lhe entrou a flecha meio dedo, mas como estava já com peçonha, não suportou nem vinte e quatro horas e rendeu a alma a Nosso senhor. (CARVAJAL).


Buchinha-do-pantanal (Luffa operculata)


È comum nessas regiões uma trepadeira carnívora hoje conhecida como batata-de-tiú ou papo-de-perú (Genero Aristolochia), que os nativos da região acreditavam ser eficaz contra o veneno de picada de cobras peçonhentas. As folhas eram também aplicadas sobre feridas e a infusão das mesmas combatia as dores estomacais, de rim e dores de barriga.



Flor e fruto da planta carnívora Batata-de-tiú ou Papo-de-perú (Arsitolóchia sp.)


Para cada doença havia uma planta específica, que se usada de forma correta inibia ou debelava e combatia doenças.


Assim era a aplicação do conhecimento tradicional herdado e repassado de pais para filho, e também realizado através de intercâmbios Inter étnicos, ao longo de várias gerações. O tempo prolongado dos exploradores com a comunidade local fê-los acreditar que a ilha e a região continham a panaceia para a cura de todos os males.


Jamais imaginavam que a banha da serpente sucuri fosse utilizada como remédio de ação anti-inflamatória.


Processo de extração da banha da serpente sucuri (Eunectes murinus)


Do roedor chamado paca, além da carne de excelente sabor, notaram que os locais extraiam o fel para usar como medicação contra a picada de serpentes venenosas pois acreditavam que tinha poderes antiofídicos, sendo usado também para combater problemas digestivos.


Paca (Cuniculus paca)


O paraíso dos Orejones – Plantas contraceptivas, abortivas e prolongadoras do gozo masculino


O povo Guató, nativos canoeiros que viviam navegando pelo vasto território flúvio-lacustre que os castelhanos denominaram “Laguna de los Xarayes” e que mais tarde os mamelucos paulistas chamaram de “pantanal”, remando pelas áreas alagadas do rio Taquari e Paraguai, nas proximidades da ilha dos Orelhões, descobriram e utilizavam uma pequena frutinha que tinha o poder de estender e prolongar o orgasmo masculino. Não há referencias se os Orejones fizessem uso dessa planta, comumente utilizada por seus vizinhos. Com o desaparecimento dos Orejones e o domínio e aculturação dos Guató esse conhecimento desapareceu.


As velhas senhoras das aldeias e parcialidades, conheciam as plantas anticonceptivas, que tomavam em forma de chá evitando assim a gravidez. Outras ervas medicinais também eram utilizadas para desfazer gravidez indesejadas, ou seja eram abortivas, enquanto outras aumentavam a fertilidade.


A interconexão entre grupos regionais (trocas e presentes).

(ilustração: Talita do Vale – Boletim Museu Emilio Goeld)


Era comum, não apenas aos moradores da ilha do Paraiso, mas as demais etnias que viviam nas áreas baixas da grande planície como caçadores-coletores-pescadores-canoeiros, devido aos ciclos de cheias e vazantes na região de Xarayés, terem um estilo de vida migratório. Subiam as águas, a comunidade deslocava-se para áreas mais altas. As donas de casa, quando mudavam, levam consigo, além dos objetos de uso no dia-a-dia, transportando também mudas de vegetais uteis a saúde e a alimentação. Muitas vezes, através das redes de comunicação entre povos, o conhecimento era repassado entre comunidades próximas com trocas de mudas, plantas e sementes.


Os ilhéus utilizavam como fármacos naturais, além das plantas, produtos de origem animal, como o citado fel da paca, a banha do sucuri que também curava dores nas juntas. Era uma crença generalizada que a raspa de pênis seco da anta, reabilitava a perda da virilidade masculina.


Ervas e frutos – (Óleo sobre tela –De Paula 1.989)


“remedeiam nestes países com águas de ervas, suores e remédios que não fazem mais custo que o de conhece-los e apanhá-los”(Caetano Paes da Silva - 1754)


O paraíso dos Orejones – Combustível para iluminação


O interior das habitações era iluminado através de lamparinas confeccionadas em argila, enquanto a área externa era quase sempre iluminada com a luz de fogueiras acesas nos pátios. Para jornadas noturnas eram confeccionadas tochas de taquara (bambu) com pontas revestidas por tecidos ou algodão embebidos em óleo vegetal ou gordura animal.


Como combustível para as lamparinas, utilizavam-se óleos de vegetais ou gorduras de animais.

Lamparinas de cerâmica primitivas. (Imagem: divulgação.)


O pau-d'oleo


Na ilha e nas terras mais altas da redondeza, havia uma árvore chamada de “pau-d’oleo” conhecida pelos tupi-guaranis de “copaíba”. A seiva dessa planta, se aplicadas a feridas da pele, tinha ação cicatrizante e curativa. O óleo desse vegetal por seu alto poder combustível era utilizado em lamparinas para a iluminação de ambientes internos.

Extraindo o óleo da copaíba (Copaifera langsdorfii). Fruto e semente. (Imagens: divulgação.)


A gordura de lambaris


Sazonalmente no rio Paraguai e em seus tributários, sangradouros, furos e arrombados próximos a ilha, ocorre a migração de pequenos peixes, a que chamam de lambaris, piquira ou tiquira. A este fenômeno os da língua guarani denominaram piracema, ou seja peixes que sobem.


A quantidade de peixes que se deslocam em cardumes é muito grande e sua captura é muito fácil. Grandes quantidades desses pequeninos peixes fritos, forneciam gordura ou banha, que era também utilizada em lamparinas de argila para iluminação interna de habitações.


“... Deve notar-se que no tempo da secca... abunda mais em peixe... e sobe em cardumes atrás da Pequira, a qual não tem mais de três polegadas de comprido” (Dalincourt)


“... que enfeita com repetidos fogos, com que faz ferver as caldeiras em que lança as pequiras, para extrair azeite (Dallincourt)



Captura da tiquira (imagem divulgação)


Velas de cera


Era comum aos nativos da região a utilização de toscas velas para a iluminação das habitações. Misturava-se a cera de abelha com resina endurecida, enrolando-se a massa em um chumaço de algodão, formando uma vela primitiva. A prática da utilização da vela de cera foi disseminada entre varias etnias sendo repassados anos mais tarde aos colonizadores lusos-brasileiros, que ocuparam a região. Só que ao invés de misturar a cera com resina, passaram a utilizar o breu.


“...são uteis huma grande quantidade de differentes abelhas, pelo mél e cera que fazem; sendo aquelle muito substancioso e até medicinal, e esta mui conveniente aos habitantes, que della, misturando-lhe huma parte de breu, fazem toscamente rollos para se alumiarem - sic” (Dallincourt).


Velas do século VI (imagem Wikipedia)


O paraíso dos Orejones – Vasilhames e utilitários para diversos fins.


O fruto de alguns vegetais eram utilizados como utensílios domésticos. O cuité (cuia-etê), era uma pequena árvore que forneciam enormes frutos, os quais eram usados como vasilhames para transporte de agua, como pratos ou medidas para o milho, o arroz ou a farinha de milho ou de mandioca. Os frutos pequenos, cortados ao meio ao qual adaptavam um haste, servia como concha para retirar caldos em panelas e caldeirões.


Havia também a ramagem chamada de cabaça, que seus frutos secos eram utilizados como odres para transporte ou armazenamento de aguas e bebidas e utensílios para a cozinha e artesanato. Os Orejones fabricavam discos com fragmentos de cabaça como adereço para as orelhas.

Àrvore do cuieté (Crescentia cujete) Vasilha confeccionadas com cabaças. Vasilhas de cuité


“....São chamados Orejones, porque têm orelhas furadas, nas quais têm enfiadas certas rodinhas de madeira, ou pontas de cabaças que ocupam todo o buraco” (CABEZA DE VACA).


Cerâmica utilitária


Utensílios de cerâmica eram fabricados ou usados entre todas as etnias, sendo uma tradição milenar desses povos. Com fins utilitários eram usados no dia-a-dia de cada família ou para o grupo social, em algumas situações.


Tigelas rasas eram usadas como tostadeiras para o preparo de farinhas e beijus, sendo as mais de maior profundidade para o cozimento de carnes e raízes. Quando o grupo era grande, utilizavam também enormes vasilhas para a estocagem de grandes quantidades, e provisões excedentes.


As técnicas de produção, ornamentação, secagem e queima de cerâmica era uma atividade executada, normalmente pelas mulheres. Labor executado com esmero e afinco, sendo uma tradição repassada de mães para filhas, através de varias gerações.


Técnicas diferentes de ornamentação eram adquiridas por contatos extra-culturais, via negociações (trocas ou escambos) presentes e mesmo saques e roubos.


Cerâmica Guarani Moringa Guaicuru Panela Terena



O paraíso dos Orejones – A vida regada a cerveja crioula.


A exuberante vegetação da ilha e da morraria próxima, em tempos de floração proporcionavam a proliferação de varias espécies de abelhas da terra. Era costume disseminado entre as diversas etnias a criação dessas abelhas, alojadas em cabaças e penduradas nas travessas das habitações. Assim, dispensava-se colher o mel nos campos e matas. Este costume generalizou-se na região, havendo até hoje, nas casas da zona rural, cabaças com abelhas jati, penduradas nas varandas.


O mel como adoçante natural de alimentos era utilizado para a produção de sucos e aguardentes, a que os europeus chamavam de água-mel. O sumo de frutas fermentado era adoçado com mel, proporcionando uma bebida alcóolica de excelente sabor.


Abelhas sem ferrão


Haviam outras bebidas alcoólicas, como a chicha produzida pela fermentação do milho previa e ligeiramente mastigado, sendo depositado em vasilhas de barro para finalização. A saliva bucal contendo enzimas, ajudavam a quebrar as moléculas do amido do milho, transformando-as em açucares que a levedura transformava em álcool. Esse era o costume dos povos das “terras altas”, difundido através dos contatos Inter étnicos.


A chicha era a bebida usada por quase todos os povos da América Latina, podendo ser fabricada com outros produtos como o amendoim, a batata e a mandioca. Tanto antes, como depois do império Inca nas zonas andinas e sub-andinas era popular a chicha de jora, a cerveja fabricada com o milho crioulo.

Preparação da chicha de milho


Já os vizinhos Guató, tinham o hábito de extrair o suco da palmeira bacuri (Scheelea phalerata) que era abundante nas áreas ribeirinhas e ilhas adjacentes. Os bororos utilizavam a seiva da palmeira buriti (Mauritia flexuosa). As bebidas eram armazenadas em vasilhas de cerâmica e mantidas a sombra em boa temperatura.


Bebida forte não faltou aos recém-chegados exploradores (cerveja fria e de boa qualidade).


O paraíso dos Orejones – copos e pratos de prata e ouro


O comercio realizado entre diferentes etnias e repartições, as alianças matrimoniais, alianças militares, saques e pilhagens, resultantes de assaltos e combates foram mecanismos que interconectaram diferentes grupos da região.


Da fronteira com os Incas vinham vários tipos de metais trabalhados, tanto em ouro como em prata. Os espanhóis estavam focados em descobrir a origem de tantas peças de metais preciosos, ficando deslumbrados com os braceletes, coroas, peitorais, pulseiras, copos e pratos de ouro ou de prata finamente acabados.


Em uma incursão, os espanhóis inquirindo um morador sobre a existência de utensílios de metal, apresentaram um prato de chumbo, a que ele, com desdém, falou de um povo que possuía pratos de melhor qualidade que aquele. O de chumbo era muito ruim segundo ele, dando a entender aos exploradores que falava de um prato confeccionado em prata polida.


Segundo alguns relatos, o povo Surucusi, como os chamava Schmidl, eram os que mais usavam peças de metal como o ouro e a prata comercializados com os povos das terras altas.


“Praticamente todos os grupos do rio e da “terra adentro” mais a oeste possuíam alguns objetos de metal, seja de prata ou de ouro, que provinham do ocidente, provavelmente dos centros incas fronteiriços. O circuito do metal (por meio de trocas, roubos, presentes etc.) é bastante conhecido, pois se tratava do principal interesse dos exploradores espanhóis. O importante é que, por meio desse comércio e outros mecanismos (alianças matrimoniais, guerras, etc.) que não conhecemos com detalhes, todos os grupos da região estão interconectados.(Isabelle Combés).


Copos de ouro produzidos pelos povos das “terras altas”


Imaginem a surpresa dos visitantes ao verem seus anfitriões servindo bebidas e comidas em taças e pratos de ouro ou prata, tendo orelhas e lábios ornamentados com pedras preciosas, lapidadas e polidas.


“e os homens levam nos lábios uma grande pedra azul igual a uma peça de tabuleiro,” .... as mulheres também têm uma pedra cinza de cristal no lábio orientação para fora; é grosso e largo, mais ou menos do tamanho de um dedo” (SCHMIDEL, 1.567).



O paraíso dos Orejones – Laços matrimonias como aliança política.

O alto rio Paraguai era habitado por povos cultivadores provenientes não só das regiões amazônicas, das partes baixas e das “terras altas”, sendo portanto palco de encontros interétnicos que resultava em inúmeros conflitos e lutas.


Quando da chegada dos espanhóis, os Guarani horticultores mantinham uma relação hostil com os Guaicuru. Ouve uma tentativa de aproximação entre os espanhóis recém chegados, e os Guaicuru, resultando em conflito, passando os europeus a serem inimigos do Guaicuru.


"... foram (os espanhóis aos Guaicuru), dentro de oito dias voltaram, e disseram e deram fé que apontaram armas contra eles, dizendo que não queriam dar a obediência nem ser amigos dos espanhóis, nem dos índios guaranis, e que se fossem logo de suas terras, e assim, lhes atiraram muitas flechas, e voltaram eles feridos ..." (CABEZA DE VACA, 1555).


Logo, os Guarani, buscaram uma aproximação com os espanhóis, aliando-se a eles contra o inimigo comum. Até então a supremacia dos Guaicuru, sobre as demais etnias que vivam na região era incontestável, pois os mesmo nunca haviam perdido um combate. Perder um combate significava serem subjugados pelos vencedores, passando muitas vezes a se tornarem vassalos sujeitos ao pagamento de tributos.


“este (Guaicuru) é um povo muito numeroso. Seus súditos precisam caçar e pescar para eles, e fazer o que lhes é ordenado – da mesma maneira como neste país (Baviera) os camponeses são sujeitos aos nobres” (SCHMIDEL).


Por fim, os colonizadores unidos aos Guarani, conseguiram derrotar os temíveis e belicosos Guaicuru, dando inicio a uma nova situação social. Para algumas etnias que viviam em constante conflitos com seus vizinhos, aliarem-se aos espanhóis significava fortalecer suas posições diante dos inimigos existentes.


A aliança dos Guarani com os Espanhóis já era conhecida desde alguns anos atrás, pois conforme relata Nuñes Cabeza de Vaca, o povo Xaray que viviam mais acima dos Orejones, tinham noticias dos espanhóis “desde o tempo em Garcia havia andado por aquelas terras.


Na ilha do Paraíso, vivia entre os Orejones alguns Chané que haviam seguidos Aleixo Garcia, em sua jornada, saindo de Santa Catarina e chegando ao tesouro em terra de domínio dos Inca. Estes Chané haviam refugiados na ilha após a morte do desbravador. Através de laços matrimoniais os Chané estabeleceram uma relação social com o povo da localidade, estabelecendo uma relação de parentesco, a principio como parentes afins (cunhados e cunhadas) e consequentemente como parentes consanguineos através de filhos, netos, sobrinhos e primos.


Os Orejones já estavam habituados a estabelecerem alianças através de trocas matrimoniais, pois consideravam mais interessante, manter um relacionamento fundamentado no parentesco do que envolverem-se em conflitos e guerras. Ademais, parte da comunidade, representada pelos Chané que ali viviam e já haviam vivido uma experiência exitosa quando se uniram aos espanhóis e saquearam os povos das terras altas.


Era costume entre alguns nativos, principalmente o povo Guarani, Guaná e Guaicuru que habitavam ao norte do rio Taquari (Itatim), fazerem pactos nupciais com outros povos, estabelecendo alianças para enfrentarem conflitos com outras nações. Era o chamado “cunhadismo”, aliança em que oferendo suas irmãs em casamento, transformava o visitante em cunhado, ou seja, um novo membro da família capaz de defendê-la e a sua comunidade, nos combates e pelejas.


“o "cunhadismo" foi o modo de os tupinambás introduzirem estranhos à sua sociedade e consistia "em lhes dar uma moça indígena como esposa. Assim que ele a assumisse, estabelecia, automaticamente, mil laços que o aparentavam com todos os membros do grupo" ( Ribeiro).


Os Guaicuru em suas correrias ao longo do leque aluvial do rio Taquari, visitavam frequentemente os Guaná mantendo um sistema de vassalagem. As mulheres principais da aldeia lhes eram oferecidas como esposas que os chamavam de “meu capitão”. Citam-se a exogamia entre os Chiriguanae e os Guarani de Itatim que se casavam com mulheres Xaray.

O cunhadismo foi tão forte nos pantanais, que até hoje, nas cidades e regiões pantaneiras, tendo um individuo simpatizado com outro, que pode lhe oferecer algum benefício, é imediatamente chamado de “cunhado”. Ao invés de dizerem “ê amigo” dizem “ê! cunhado”.


“A troca de mulheres de maloca para maloca, fundando ligações estreitas de parentesco entre famílias alargadas e demais, institui por essa mesma razão relações política, mais ou menos explícitas e codificadas é certo, mas que impedem grupos vizinhos e aliados pelo casamento de se considerarem reciprocamente como primos “(CLASTRES).


Os espanhóis aceitaram de muito bom grado as lindas mulheres que lhes eram oferecidas pelos Orelhões, mesmo porque eram mulheres muito bonitas, diferentes de algumas de outras tribos que encontraram pelo caminho e que foram taxadas de feias.

“...as mulheres desses índios são feias de rosto,” (NÚÑEZ CABEZA DE VACA – a respeito das mulheres Yacaré).


Obviamente o matrimônio interétnico resultava em troca de presentes, o que foi interpretado por alguns (até mesmo por historiadores) como uma forma de prostituição. No entanto a relação dos exploradores espanhóis que chegaram a ilha foi uma comunhão estável, pois cada um deles, durante os meses que alí ficaram, tinham seu próprio lar, vivendo como se um deles fosse, gozando de paz e amizade.

“...vivem em galpões, não na forma de um povo, mas cada parcialidade por si: mantenham-se uns aos outros em muita paz e amizade” (GUSMÁN, Ruy Diáz).


O cunhadismo ou o matrimônio interétnico entre espanhóis e guarani eram frequentes. O explorador e governador Domingos Martinez de Irala, que esteve na ilha dos Orejones, teve algumas esposas Guarani, dentre elas Leonor Iboty-I (Flor Amarela) filha do cacique Mokirace, da qual gerou Ursula de Irala Moricacé que foi mãe do historiador Ruy Diáz de Gusman. Gerou ainda com outras esposas Guarani mais sete filhos mestiços. Ao que parece, Irala soube aproveitar bem, a “cordialidade” dos Guarani.


Los Orejones – os habitantes da ilha do Paraiso


O entorno da região era habitada por diversas e distintas etnias nativas, sendo a maioria desses povos, extremamente hostis e belicosa, principalmente com estranhos visitantes. O povo que habitava a extensa ilha foi nominada pelos aventureiros espanhóis como sendo os “ Orejones”, por terem as orelhas furadas e alargadas, nas quais penduravam discos de madeira.


“...e os homens levam nos lábios uma grande pedra azul igual a uma peça de tabuleiro ....os homens têm no lóbulo da orelha disquinho redondo de madeira do tamanho de uma boa peça de tabuleiro (SCHMIDEL, 1.567).


O adorno labial das mulheres, a que os Guarani chamam de tembetá era finamente acabado, confeccionado em uma pedra de cristal cinza.

Adornos labiais utilizados por mulheres Yanomami Tembetás (adornos labiais) trabalhados em pedra.


“as mulheres também têm uma pedra cinza de cristal no lábio orientação para fora; é grosso e largo, mais ou menos do tamanho de um dedo” (SCHMIDEL, 1.567).


Nativo "Orelha-de-pau" (fonte : wikimedia por Valter Camoanato)


“...têm as orelhas furadas e tão grandes, que pelos seus furos passa um punho fechado, e trazem enfiadas nelas umas morangas medianas, e frequentemente as tiram e substituem por outras maiores; e assim fazem suas orelhas icarem tão grandes que quase lhes alcança o ombro, e, em razão disso, os outros índios da comarca lhes chamam orejones” (NÚÑEZ CABEZA DE VACA -1555).


Quem eram os Orejones?


Os nomes das diversas etnias relatadas nos escritos dos cronistas exploradores que estiveram na região da Ilha do Paraíso, eram os nomes dados pelos guias nativos que acompanhavam os espanhóis, sendo alguns na lingua gorgotoqui e outros na língua guarani. Muitas vezes faziam menção de algum chefe de povoados, outras vezes de parcialidades, outros de línguas faladas ou mesmo de etnias.


Por “Orejones” os espanhóis se referiam a vários grupos diferentes que possuíam o mesmo costume de furar e alargar as orelhas, e não especificamente a uma etnia ou povo.


Enquanto os espanhoís chamavam os nativos de “orejones” (orelhões), os portugueses e lusos-brasileiros os chamavam de “botucudos”, pois os adereços de orelhas e lábios muito se assemelhavam as rolhas utilizadas para tampar barris e tonéis (botoque).


“Há alguns povos e nações que navegam o rio, até algumas cidades indígenas chamadas Orejones, que vivem dentro de uma ilha que faz este rio...chamam-lhes Orejones, porque têm orelhas furadas, nas quais têm enfiadas certas rodinhas de madeira, ou pontas de cabaças que ocupam todo o buraco:” (GUSMÁN, Ruy Diáz).


Nativo com “botoques” (fonte: wikipedia)


Para o explorador e cronista bávaro, Ulrico Schmidel, os orelhões da ilha eram os Surucusi, quando escreve que antes que ele chegasse ao Puerto de los Reyes, o governador Alvaro Ñunes Cabeza de Vaca havia despachado três bergantins na frente que chegaram a ilha onde habitavam os Surucusi.


“uma nação dos sobreditos Surucusis, habitantes de uma ilha” (SCHMIDEL, 1567).


Cabeza de Vaca sita os Socorino que talvez sejam os mesmo Surucusi de Schmidel. Acredita-se que conforme os relatos de Ñunes os orelhões da ilha fossem os Sacosi e Xaque, que haviam recebido por laços matrimoniais os Chané que acompanharam o exército de Aleixo Garcia na jornada até os Inca ,e que depois da morte de Aleixo se refugiaram entre os Orejones. Isto pode explicar a boa receptividade dos moradores da ilha para com os espanhóis.


Eram muitos os etnônimos utilizados para designar os povos da região chamados pelos espanhóis de Orejones, tais como Sacosi, Socosie, Sicoxi, Surucusi e Socorinos, Xaque, Xaquete, Xaqueti, Saquese ou Xaquese.


Pouco se sabe sobre o idioma ou o tronco linguístico por eles falado. A comunicação entre os espanhóis se dava através dos Itatim que falavam o guarani, que era uma língua geral compreendidas por muitos.


Irala cita alguns Chané que falavam o idioma guarani, pois haviam sido prisioneiros dos Itatim, tendo também alguns que haviam acompanhado a jornada do português Aleixo Garcia ( entre 1521 e 1526) e que após a morte do mesmo, haviam se abrigado entre os Orejones. Poderiam os mesmos terem sidos os tradutores dos Orejones ilhéus. A presença do Chané de Garcia entre os Orejones, poderia explicar a boa receptividade dada aos exploradores espanhóis.

“São os índios daquela ilha de boa vontade e amigos dos espanhóis” (GUSMÁN, Ruy Diáz).


“Os Chané recém-chegados em Puerto de los Reyes falaram guarani com Irala, idioma que conheciam por terem sido prisioneiros dos Itatim anteriormente” (IRALA [1543]).


“...os Chané dessa região, com seu principal Cheroçe, não eram originários de Puerto de los Reyes, mas sim de “terra adentro” mais a oeste...eram “índios de Garcia” que se refugiaram depois de sua morte entre os “Orejones”, travando alianças (matrimoniais, inclusive) com Sacosi e Xaque”(Isabelle Combé).


No Brasil os “orelhões”, chamados de botocudos, são hoje representados pela etnia Aymoré com remanescentes que habitam em parte no estado da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo. Sofreram grande perseguição dos brasileiros, pois o rei Dom João VI declarou guerra aos mesmos, quase levando-os ao extermínio.


Orejones para os espanhóis e botocudos para os Luso-brasileiros. (Imagem divulgação)


Os luso-brasileiros os chamavam de Botocudo, para os Tupi eram os Aimoré. Hoje são chamados de Krenak, no entanto se autodenominam Borum, sendo conhecidos pelos técnicos como Borum Athorãn/Krenak.


Ailton Krenak (Imagem: diário de Cuiabá)


Hoje o líder Ailton Krenak, é a grande referencia nacional e internacional da luta pela conquista de seus direitos. Os Krenac vivem as margens do rio Doce no estado de Minas Gerais. Outro grande líder nativo conhecido mundialmente é o Caiapó, Cacique Raoni, que tem se destacado como grande defensor das florestas e dos povos nativos.


Cacique Raoni (Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado)


Os Orelhas-de-Pau


No estado de Mato Grosso, entre os municípios de Brasnorte e Juína, existem três áreas reservadas aos povos Rikbaktsa, também conhecidos como Canoeiros ou Orelha-de-Pau. São as reservas Ericbactsa, Escondido e Japuíra localizadas as margens dos rios Juruena, Sangue e Arinos. Localizadas ao norte da Ilha do Paraíso (ilha dos Orejones), são os povos que mais se aproximam das características dos Orelhões do Pantanal.

Nativos Rikbaktsa - “orelhas de Pau” ou “canoeiros” – Rio Juruena e Mulher Rikbaktsa da aldeia Primavera, Juina MT (imagem divulgação).


Os Orejones da ilha do Paraíso, graças as ações do encomenderos espanhóis e dos bandeirantes lusos-paulistas e os conflitos com outras etnias desapareceram. Os rikbaktsa são os “orelhões” que vivem mais ao norte bem acima das planícies pantaneiras do "Mar de Xarayés". Encontram-se sediados na floresta amazônica. Nas últimas décadas, sofreram forte ataques de colonos e pressão de Jesuítas que tentaram força-los a esquecer sua língua original e seus costumes tradicionais. No entanto sobreviveram e seguem lutando pelos seus direitos.

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Você conhece o povo do pantanal? Já ouvistes falar?

Falo dos Orelhões, que na ilha do paraíso, viviam com seu povo.

Que nas orelhas, encastoavam ametistas azuis, maiores que um ovo.

Moravam em aterros, nas águas vivendo a nadar.

Será mesmo que já ouvistes falar?

(DE PAULA- monólogo Moradores do Pantanal)


A localização da Ilha do Paraiso


Desde 1.600 d.C. alguns mapas da região, circulando na Europa registravam a Laguna de los Xarayés, tendo ao centro a ilha do paraíso.

Canto superior esquerdo – Laguna de los Xarayes e isla de los Orejones- “isla del Paraiso”.

(Ioannes Petroschi. Paraquare Provincie Soc. Jesu Cum Adiacentib Novissima, 1732).


A ilha do Paraíso é citada nos trabalhos de Ruy Diáz de Gusman. Ruy Diáz é considerado o primeiro historiador paraguaio. Seu pai esteve presente na frota do governador Cabeza de Vaca e sua mãe era filha mestiça do explorador e governador Domingo Martinez de Irala.

Ruy relata em seus trabalhos os escritos de Schmidel, Irala e Cabeza de Vaca.


“Há alguns povos e nações que navegam o rio, até algumas cidades indígenas chamadas Orejones, que vivem dentro de uma ilha que faz este rio, com mais de dez léguas de comprimento e duas e três de largura, ... São os índios daquela ilha de boa vontade e amigos dos espanhóis... Os antigos chamavam esta ilha de Paraíso Terrestre, por causa da abundância e qualidade maravilhosa que tem." (GUSMÁN, Ruy Diáz)


Em 1.828 o Sargento-Mor Engenheiro Luiz D’Alincourt, foi encarregado pelo imperador brasileiro de levantar os dados estatísticos e topográficos da província de Mato Grosso e da fronteira do Brasil com o Paraguai. De suas viagens ao pantanal ele dá a localização da Ilha do Paraiso situando-a na extremidade do leque aluvial do rio Taquari em sua intersecção com o rio Paraguai.


“Este encontrou a 19º 11' a foz mais meridional do rio Tacuarí por onde hoje os portugueses vão de São Paulo a Cuiabá e Mato Grosso. É um rio caudaloso, que corre de leste a oeste e desemboca no Paraguai por três desembocaduras a quatro milhas de distância uma da outra. A 19º 5' o avanço descobriu que o rio Paraguai tinha dois braços, que separando-se a 18º 28' encerram uma grande ilha denominada pelo já referido Rui Díaz, ibidem, do Paraíso; cuja extrema amabilidade e boas qualidades, juntamente com a afabilidade de seus habitantes, diz que convidaram os espanhóis a notá-la" (Alincourt, Luiz d’ resumo das explorações feitas pelo engenheiro Luis D’Alincourt).


D’Alincourt dá não só as coordenadas geográficas da ilha, como indica a foz (na época) do Taquari, fazendo referencia também a Albuquerque e o morro do Rabicho, no território do município de Corumbá-MT.


“ De Albuquerque volta o Paraguay a leste encostado ás serras d’este nome, as quaes findam por 5 legoas de extensão na serra do Rabicho, defronte da qual e na margem de norte e oposta do rio, está a boca inferior e de sul do Paraguay-mirim; isto é, um braço do Paraguay que termina neste lugar, formando uma ilha de 14 legoas de comprido de norte a sul” (Resultados dos trabalhos e indagações statisticas da Provincia de Matto-Grosso por Luiz D”Alincourt Sargento-Mor Engenheiro encarregado da Comissão statistica topográfica acerca da mesma província – 1828).


Guzman relata ter a ilha mais de 10 léguas, D’Alincourt confirma com precisão o tamanho de 15 léguas, medindo também a distancia do leito principal do Paraguai em 31 léguas e o Paraguai-mirim com 19 léguas de extensão.


“O Paraguay encerra uma prodigiosa quantidade de ilhas de diferentes grandezas,... a ilha chamada do Paraguay-Mirim hé notável por sua extensão de 15 legoas, dividindo o rio em dous longos braços, hum de 31, e outro de 19. Tem esta ilha huns pequenos morros, e hé quasi toda coberta d’agua na máxima cheia“ (Luiz D’Alincourt – 1826)




O paraíso terrenal


A concepção de felicidade dos europeus baseava-se no principio de riqueza material. Ouro, prata e pedras preciosas era a chave para encontrar a felicidade. O ouro a tudo comprava: terras e propriedades, donzelas formosas, conforto, prestígio, abundancia de alimentos, até a cura de males.


Ao depararem com o estilo de vida dos Orelhões, a concepção original sobre a felicidade daqueles exploradores que aportaram na ilha veio por terra, aflorando em suas vidas o sonho do jardim edênico e o conceito nostálgico do paraíso terrenal, onde reinava a felicidade.


Na ilha tudo era a representação do paraíso: a hospitalidade, bondade e cortesia; a superabundância de alimentos; a fertilidade e a produtividade do solo; os mil frutos da terra; a fartura de pão; as lindas mulheres; as mulheres fiandeiras; as leves regras sociais; a cura dos males; a existência de combustível e a iluminação; os vasilhames e utilitários de origem vegetal; a abundancia de mel; as lindas mulheres e boas esposas, e principalmente os objetos de ouro e prata e as pedras preciosas.


A riquíssima natureza diversificada e exuberante que preenchia os sentidos com fragrâncias, cores e sabores, tudo em real equilíbrio proporcionando paz e bem-estar. Estava ali, o tão sonhado mundo paradisíaco. Na concepção daqueles espanhóis, era com absoluta certeza a ilha do Paraíso.


A quebra da aliança matrimonial e o rompimento do acordo político


A tripulação dos bergantins espanhóis, que havia chegada a ilha, fora incumbida de ali permanecer e aguardar a chegada do governador, que havia se deslocado rio acima, em busca do caminho de Aleixo Garcia. Ficam estacionados na ilha por três meses, aguardando o retorno do restante da expedição.

A vida na ilha do Paraíso mudou a concepção dos exploradores que alí estiveram estacionados, pois constituíram nesse curto espaço de tempo, famílias e lares. Descobriram que a velha vida de mercenários da coroa espanhola, a procura de riquezas, enfrentando mil adversidades, não era tão desejável.


Quando Cabeza de Vaca chegou, deu ordem de partida imediata para toda sua frota, pois desejava voltar a Assunção. Para desespero daqueles que haviam ficado na ilha, não restava outra opção senão embarcar e abandonar suas mulheres. Se decidissem ficar seriam presos e declarados desertores, sendo passíveis de pena de morte por enforcamento. Apesar da insistência não lhes foi permitido levar suas mulheres.


Para o governador, o mais importante era obter sucesso na busca das riquezas em prata e ouro através do caminho percorrido por Aleixo Garcia, em direção ao território Inca. A missão dada a ele pela Coroa Espanhola era concluir o trabalho inacabado de seus antecessores, como o fidalgo D. Pedro de Mendonça falecido em 1537, como Juan de Ayolas que o substituiu e que embora tenha penetrado no Peru e trazido boas provisões de prata, havia sido atacado e morto pelos Paiaguá e Mbayá. D. Domingos Martins de Irala, substituindo Ayolas também não havia obtido êxito na missão, sendo então D. Alvar Nuñes Cabeza de Vaca nomeado governador para concluir a missão.


A felicidade para os exploradores representantes da Coroa era encontrar o caminho para as riquezas em ouro e prata. Pouco importava o bem estar e a felicidade de alguns de seus mercenários e muito menos se fixar em um pretenso paraíso terrenal.


A revolta dos Orejones


O que o governador não entendeu, é que os espanhóis que aportaram na ilha, ao estabelecerem laços matrimoniais com os ilhéus, no entendimento dos nativos, haviam firmado um pacto político-social através das núpcias, que uma vez estabelecido, automaticamente criava laços não só com a família, mas também com a parcialidade ou com os demais membros do grupo, como também com toda etnia e seus aliados.


Essa ligação não era apenas afetiva ou social, mas acima de tudo politica, pois a junção de duas nações significava o aumento de força e poderio perante hegemonias dominantes e tradicionais inimigos.


A quebra do compromisso social era inadmissível, sendo considerada como traição e ultraje, sendo passível de rompimento de relações entre os povos, encetando hostilidades e conflitos, gerando assim a desarmonia e desestruturação no contexto macrossocial da região.


Os Orejones, com a partida dos espanhóis se sentiram ultrajados com o rompimento dos pactos nupciais e a desestruturação de suas famílias. Forçar a partida dos espanhóis deixando para traz suas mulheres, causou descontentamento não só nos tripulantes dos três bergantins, mas em todos os ilhéus e seus aliados.


A revolta foi tão grande que os Orelhões, uniram-se a diversas etnias da região, sublevando-se contra os espanhóis, travando tremenda batalha que resultou em varias mortes. Os Guaxarapos (nativos canoeiros) uniram-se aos Coriancoci e os Arrianicosi e aos Orejones no combate aos espanhóis de Cabeza de Vaca. Ao conflito juntaram-se os Arrianicosi aos temíveis canoeiros Guató, todos resolutos em combater os desprezíveis espanhóis traidores.


Morreram muitos nativos e espanhóis no conflito. A paz, a harmonia e o bem estar, que reinava em função da doce aliança, foi substituída por rancor e beligerância, motivada por vingança resultando em vendetas, predações e conflitos.


O confronto em repúdio ao ato de traição, fez aflorar a ancestralidade em que o principio canibal foi usado como elemento representativo de poder, quando alguns ilhéus, diante dos olhos dos espanhóis atônitos, mataram, esquartejaram, assaram e comeram alguns prisioneiros espanhóis.


“ ...Socorinos e Xaques comeram alguns prisioneiros espanhóis” (Cabeza de Vaca).


Os que com amabilidade extrema haviam recebido os visitantes, diante do desrespeito aos seus princípios sociais e políticos, demonstrando seu repúdio, agora matavam e devoravam a carne daqueles que foram tidos como irmãos


O ato impensado do Governador, não ficou apenas na quebra do arranjo politico regional ou na perda de alguns de seus homens. O descontentamento de parte da tripulação, principalmente dos que haviam ficado na ilha, somado a outros que revoltados com as atitudes do governador, fizeram um levante que culminou com a deposição de Cabeza de Vaca, sendo este destituído do cargo, preso e conduzido de volta a Europa.


A ilha do Paraiso e a sua transformação na ilha da Morte.

Alguns anos se passaram, e com a descoberta do caminho de Aleixo Garcia que conduziu os espanhóis ao grande rei branco que imperava sobre os Andes e a descoberta da grande montanha de prata em Potosí, a ilha do Paraíso e seu povo não foram mais relatados nos registros históricos, passando despercebida durante 200 anos.


Estampa- Ulrico Schmidl na região andina, montado em uma lhama (capa livro Viagem al rio da la prata).

No decorrer desses anos, houve muitas mudanças no domínio geopolítico regional. Os espanhóis através dos encomendeiros exterminaram muitas tribos, levando cativos milhares de nativos para serem usados como mão de obra escrava. Jesuítas espanhóis se instalaram no Itatim, agrupando e cristianizando inúmeras nações, tribos e parcialidades. Por fim os lusos-paulistas denominados bandeirantes arrasaram os povoados e reduções jesuíticas, atacaram, mataram e aprisionaram muitos nativos exterminando inúmeras tribos e parcialidades.


“...Versando estes famosos aventureiros, tanto americanos a quem chamavam paulistas pela nominação da patria, como europeus chamados emboabas,... auxiliados dos mesmos indios que amansavam, com quem faziam guerra as barbaridades. Acharam nos principios além do rio Panema algumas povoações de gentes catholicas, reduzidas pelos padres missionarios castelhanos, com egrejas já levantadas e offerecidas, e officinas de varias fabricas que expugnaram, prenderam muitos dos indios, lançaram os brancos e destruiram as feitorias." sic. (Barboza de Sá)


Então, por volta de 1700, a hegemonia da região, estava nas mãos dos Cavaleiros Mbayá-Guaicuru que dominavam sobre o Itatim e os campos de Vacaria, enquanto a navegação pelas águas do Alto Paraguai era controlada pelos homens anfíbios da etnia Paiaguá, canoeiros belicosos que haviam estendido seu domínio naval para aquela região.


“...e que em quanto o Gentio Guató teve forças nunca Payagoa fes aventuras, por ser deles cossados, e viverem temerosos, e que como os Guatós estavão acabados pelos brancos os destruírem, já os Payagoas tinhão ganges, e que assim como os brancos tinhão acabado os Guatós, focem tão bem acabar os Payagoas...” Sic (Annaes do Sennado da Camara do Cuyabá – 1725).


Nativo da etnia Paiaguá

O povo Paiaguá havia presenciado o extermínio da grande nação Xarayé destroçados por inúmeras bandeiras paulistas, bem como a desarticulação do até então, imbatível povo Guató. Com a intensa movimentação dos monçoeiros, indo e vindo das minas auríferas de Cuiabá, os Paiaguá prevendo o domínio dos colonizadores, encetou fortes incursões de combate aos exploradores brancos que transitavam por seus domínios.


Quando a partir de 1719 iniciou-se o grande fenômeno migratório (rota das monções), onde milhares de pessoas, saindo de São Paulo deslocavam-se pelos rios pantaneiros, em busca do segundo Eldorado brasileiro, indo explorar ouro em Cuiabá, obrigatoriamente tinham que navegar junto a antiga ilha do Paraiso, nas desembocaduras do rio Taquari junto ao rio Paraguai, chamada então de ilha do Paraguai-mirim., os baixos pantanais eram então território dos Cavaleiros Guaicuru e dos canoeiros Paiaguá.


“Aos oito dias do mez de Abril de mil setecentos e dezenove annos, neste arraial do Cuyabá fez junta o capitão-mór Paschoal Moreira Cabral com os seus companheiros e lhes requereu a elles este termo de certidão para noticia do descobrimento novo que achámos no ribeirão do Coxipó. Sic.(Paschoal Moreira Cabral).


“ Divulgada a noticia pelos povoados, foi tal o movimento que causou nos animos, que das Minas Geraes, Rio de Janeiro e de toda a capitania de S. Paulo se abalaram muitos, deixando casas, fazendas, mulheres e filhos, botando-se para estes descobertos como se fôra a Terra da Promissão ou Paraizo incoberto, em que Deus pôz nossos primeiros paes” Sic.(Barboza de Sá).


Os Paiaguá observando a passagem das embarcações indo ou vindo para Cuiabá, estabeleceram uma estratégia de ataque as monções, escolhendo como cenário de guerra, as regiões alagadas que se estendiam desde a foz do rio Miranda, passando pelas desembocaduras e canais do rio Taquari, morro do Chané, entrando no rio dos Porrudos (hoje São Lourenço) até a foz do Cuiabá.


“... Como deste rio (Taquari) para diante há perigo de se encontrar o gentio cavaleio e paiagoá......quando os rios enchem e fazem pantanais pelas suas margens, sobem então então a vir buscar o nosso caminho, buscando sempre os mesmos pantanais e lugares difíceis às nossas canoas.... A sua cautela é grande, e nunc atacam tropa alguma sem que primeiro a venham vigiando muito tempo, escondem-se pelos ribeirões e sangradouros, que desembocam nos rios por onde é nossa viagem, para o que tem a maior facilidade no Paraguaimirim e no Paraguai grande e quando os rios levam já muita água, no mesmo rio Cuiabá, até muito perto do porto. Dali nos espiam, e quando nos vêem descuidados, saem derepente com grande gritaria, e o o seu empenho todo é molhar-nos as armas, e abordar para se livrarem do dano que delas recebem...” sic (Conde de Azambuja – Vice-Rei do Brasil – 1751 in Relatos Monçoeiros).



A partir do ano de 1725, foram constantes os ataques dos Paiaguá as monções, com o roubo de cargas, o aprisionamento e sequestro de pessoas e a morte de muitos, sequenciando as ações predatórios por longos anos.


“Anno de 1725 – Vindo este ano gentes de povoado para estas minas, capitaneando Diogo Souza um troço de canoas, em conserva, em que trouxe bastante sua, com muita fazenda e escravatura; foi acommettido do gentio Payaguá, junto a barra do Xanés,onde acabaram todos os que vinham na conserva, escapando um só branco e um negro, que foram tomados por outras canaoas que vinham atraz. O numero de canoas havia de ser vinte com o melhor de 600 pessoas;” Sic (Annaes do Sennado da Camara do Cuyabá – 1725).


A partir desta data, ano após ano, sucediam-se os ataques aos comboios de embarcações que passavam pela região. Massacres de grande número de pessoas foram frequentes, como o ocorrido em 1729 em que foram mortos 400 pessoas de uma monção.


Foi notória a ação dos Paiaguá em 1730 quando os nativos organizados em 80 canoas, com mais de 500 combatentes atacaram a expedição do Ouvidor Lanhas Peixoto onde morrem 108 pessoas sendo roubado 700 arrobas de ouro.


Em 1731 os Paiaguá com muita ousadia atacaram o arraial velho, matando muitas pessoas e levando cativo muitos escravos indígenas e negros. O povo das minas organizou então uma expedição de combate com 80 canoas preparadas para a guerra, levando 400 homens. Fizeram um ataque contra os Paiaguá e os Guaicuru seus aliados. Embora houvessem matados alguns nativos, a expedição punitiva não obteve muito sucesso pois em 1733 uma monção vinda de São Paulo composta por 50 canoas foi atacada morrendo mais de 500 pessoas.

Desenho de Hercules Florence. Monção militar de combate aos nativos

Então em 1.734 foi composta uma armada de guerra com mais de 100 canoas e três balsas levando 842 homens para o combate. Foram exterminados na ocasião600 Paiaguá, sendo 266 aprisionados. A ação naval não impediu os ataques dos Paiaguá, que sucessivamente, ano após ano continuaram atacando inúmeras monções, matando centenas de pessoas por mais 20 anos.

Óleo sobre tela - Moacyr Freitas - Combate de Monção com os Paiaguá


A ilha do Paraguai Mirim, na foz do Taquari, que ficou conhecida no mundo inteiro como a Ilha do Paraíso tornou-se agora, a ilha da morte e da destruição, pela ação nefasta da nação dos canoeiros Paiaguá.


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